Entrevista transcrita de Henrique Wolland, o Alemãozinho do Contestado

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Autoria: Rafael José Nogueira (1).

Quem foi Alemãozinho?

Pouco se sabe, e ainda com imprecisão, sobre a vida de Henrique Wolland, o chamado “Alemãozinho do Contestado”. O que se conhece é que ele nasceu por volta de 1894 e morreu no ano de 1917. Ainda jovem, foi assassinado a golpes de facão e alvejado por arma de fogo, ficando seu corpo desfigurado. Os poucos dados existentes sobre Alemãozinho advêm dos seus depoimentos enquanto esteve preso na cidade de Rio Negro, entre 1915 e 1916, pouco antes do seu assassinato no Paraná. Aliás, o crime a qual estava respondendo foi um dos temas da entrevista que ele concedeu ao jornal O Imparcial, do Rio de Janeiro, em 1915. Além de revelar sua idade, declarou ser de origem alemã, vindo da cidade de Westhphalen-Alemanha. Sobre sua família, declarou que o pai, também alemão, chamava-se Francisco Wolland. No entanto, em seu atestado de óbito, consta que o pai era brasileiro, contradizendo suas afirmações quando interrogado, uma vez em 1915 e outra em 1916. Outra informação a respeito de seu pai, a partir de uma notícia vinculada no jornal O Município de Joinville, em 1919, é a de que ele era lavrador. Sobre a sua mãe a única fonte disponível é o seu atestado de óbito, afirmando que ela era alemã. Por duas oportunidades Alemãozinho disse que vivia como fotógrafo e morador da colônia de Hansa, atual Corupá, Santa Catarina. Há dúvidas se teve filhos ou mesmo e se ele se casou, tão pouco se sabe se teve irmãos. Pesquisas futuras poderão esclarecer as imprecisões da vida de Alemãozinho.

Na entrevista abaixo, realizada em maio de 1915, o personagem Alemãozinho versa sobre sua entrada na Guerra do Contestado (1912-1916). Em um primeiro momento ao lado dos caboclos e, depois, se entregando as forças federais comandadas por Setembrino de Carvalho(2) , ajudando, inclusive, com informações importantes sobre os caboclos. Nessa entrevista ele aproveita o ensejo para apresentar sua versão sobre o assassinato cometido em agosto de 1914, contra José Paulo Schmidt(3), em Rio Negro. No momento da entrevista Alemãozinho já se encontrava preso preventivamente e esperava o seu primeiro julgamento que aconteceria pouco depois, no dia 15 de junho, e do qual seria absolvido.


(SOUZA, 2016)

Alemãozinho não teve tempo de comemorar o seu alvará de soltura, já que a promotoria recorreu da decisão do júri e embargou o alvará. Desta forma ele esperou até março de 1916, quando foi novamente a julgamento4 e, pela segunda vez, absolvido e desta vez sendo solto em definitivo. Contudo, Alemãozinho faleceu alguns meses depois, em janeiro de 1917


(SOUZA, 2016).

Ao final da entrevista o repórter do jornal O Imparcial faz algumas perguntas mais especificas sobre o conflito do Contestado. Apesar de Alemãozinho ser lacônico em algumas respostas, ele discorre sobre alguns líderes importantes como Adeodato Ramos e Aleixo Gonçalves do lado caboclo, e, do lado estatal, o Capitão Potyguara e o General Setembrino de Carvalho, mostrando um pouco da dinâmica em relação a estratégia de ambos os lados. Por fim, explana sua visão sobre a questão de limites, focando a sua avaliação na situação dos caboclos. 2. Entrevista A entrevista encontra-se na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e foi transcrita in verbis. Foi necessária a ajuda de Joaquim Ferreira do Amaral5 para conseguir a entrevista com Alemãozinho, uma vez que o mesmo aguardava seu julgamento em prisão preventiva. Alemãozinho foi trazido da prisão para a casa do chefe do destacamento policial, para a realização da entrevista. A edição do jornal O Imparcial com a publicação tem na página da entrevista a data de 24 de maio de 1915, e no restante das páginas a data 31 de maio de 1915, podendo significar um erro de impressão ou mesmo engano nas datas. De qualquer modo a entrevista foi realizada semanas antes do primeiro julgamento de Alemãozinho. Usei o itálico em suas falas ao longo da transcrição. A Agitação no Contestado “Allemãozinho”, um dos chefes dos bandoleiros, em Rio Negro, é entrevistado pelo “O Imparcial”. As suas revelações interessantíssimas Henrique Volland, muito louro, de olhinhos muito azuis, redondos e espertos, rosto também redondo e corado, completamente imberbe, estatura abaixo da média, aparentando 20 anos de idade, vem falar-nos. É o Allemãosinho, um dos chefes bandoleiros dos fanáticos e terror que foi das populações de Papanduva, Lucena, Canoinhas e Rio Negro, na agitação da vasta região do Contestado entre Paraná e Santa Catarina. Devemos a sua presença a bondade do dr. Joaquim Ferreira do Amaral, com quem, nos entendíamos, em Rio Negro. Trouxeram-nos da cadeia a casa do comandante do destacamento, onde aguardamo-lo. Diante de nós lhe dizerem quem éramos, esboçou um sorriso, exclamado: “Oh! se soubesse, teria feito outra toillete… Respondemos-lhe que como estava, roupa de brim, camisa sem colarinho, lenço de seda vermelho ao pescoço, calçado de meias de algodão e chinelos, se mostrava bastante decente. E imediatamente, pedimos-lhe contasse-nos a sua aventura entre os bandidos que infestam aquelas terras. É simples, começou: “Conheço como a palma de minha mão, toda gente em S. Bento, Colônia Vieira, Caçador, Taquarussu, Porto União, Curitibanos, S. Francisco, Lages, Canoinhas e aqui, lugares que vivi, tendo os meus pais em Santa Catarina, fui trabalhando ora como caixeiro, ora como construtor de casas, afinal de medidor de terras. Sou por isso, muito conhecido” Allemãosinho tem a pronuncia extravagante, falando, um pouco, igual aos caboclos: veio, ao invés de velho; via, invés de olha; animá, ao invés de animal; sordado, ao invés de solado. Etc.; e o estrada, o virgem, o monarquia, ao invés de a estrada, a virgem, a monarquia… Não obstante a péssima pronuncia, é tagarela como uma criança, dando-nos uma esquisita impressão de puerícia em toda a conversa. Continuou, pois, na sua meia língua, com abundância de detalhes inúteis, a sua história:

“Abandonando o emprego de caixeiro, arranjei uma pequena máquina fotográfica e com ela andava aqui e ali, de colônia em colônia, de estrada em estrada, indo ás cidades tirando retratos. Um [dia] 6 assim, encontrei-me com o meu [Ilegível] 7 Julio Culcheski, polaco, padeiro em Papanduva, que me convidou para ir a sua casa assistir a um casamento. Fui e levei a máquina fotográfica, afim de tentar ganhar algum dinheiro, fotografando o pessoal. Julio ai, mostrando-me na parede um retrato que dizia ser do monge José Maria que matou, com sua gente, o coronel João Gualberto, no Irani, levou-me a um canto e me propôs a tiragem da reprodução de dúzias do tal retrato para vendermos; pois afirmava, toda a caboclada compraria, sendo o trabalho um negócio muito lucrativo para nós ambos. Aceitei a proposta; tomei o retrato do monge e vim a Rio Negro, hospendando-me no Hotel Gegegenbauer e ai efetuei a obra fazendo quatro dúzias em cartão imperial, dos grandes, e mais cento e setenta em cartões postais. Prontos, voltei a vende-los, primeiro na colônia Lucena, depois na Moema, onde ficaram com duas dúzias dos retratos do monge. Segui á Papanduva entregando uma dúzia ao referido Julio Culcheski e lá permanecendo dois dias. Durante estes dois dias em Papanduva, aconselharam-me ir á Campina Vieira e a Salgueiro, além de Canoinhas cinco léguas, zona em que viveu o monge José Maria, tendo lá muitos adeptos. Sabendo que tal região se mantinha completamente infestada de fanáticos que deram de praticar horríveis barbaridades como prender e matar, á fome, queimar vivo, cortar aos pedacinhos as vítimas que lhes caiam nas mãos, isto depois de baterem as forças do general Mesquita em Taquarasu, tomando-lhes grande quantidade de armas e munições, não aceitei logo os conselhos. Instado, porém com repetidas promessas de vender bem os retratos, nada me podendo acontecer, refleti sobre as vantagens do negócio e cautelosamente meti-me na empresa. Na região perigosa, dirigi-me á venda (pequena casa comercial) de Firmino dos Santos, homem morigerado, meu antigo conhecido, com quem tive hospedagem. Na manhã seguinte, confiei a Firmino dos Santos o plano de vender os retratos aos fanáticos. Firmino, acolhendo-o com alegria, protestou, quanto á denominação de fanáticos, porquanto não eram, e sim monarquistas, e haviam de ter o imperador que viria protegido pelo rei da Alemanha. Procurei convencer a Firmino que aquilo era impossível, impossível e absurdo. E acabamos a conversa, para não discutir. Momentos, após, apareceu-lhe Otto Egas, que me pôs ao corrente da agitação e da vida dos fanáticos, mostrando as inconveniências de se lidar com eles que eram muito ignorantes e desconfiados, não valendo a pena propor-lhes a compra dos retratos. Então, já resolvia a voltar para Papanduva, quando no instante aparece Firmino com uma fita larga, branca, ao chapéu, trazendo outra nas mãos, acompanhado de quatro homens, todos com a mesma fita no chapéu. Aproximando-se, Firmino entregou-me a fita e apresentou-me os homens armados, dizendo: este é dos nossos. A situação era dos diabos! Exclama Allemãosinho e prossegue na narrativa: “Fiquei com aqueles homens que não me largavam um minuto, o dia inteiro, mostrei-lhes os retratos do monge que viram com curiosidade e desconfiança. Á noite passaram ao meu lado, palestrando pouco e não pregando os olhos para dormir. Ao amanhecer levantaram-se e fizeram-se levantar. Ao sairmos fora, ai estavam mais doze homens com a tal fita no chapéu e armados de winchester. Estes conduziram-me ao acampamento de Ribeirão Raso, cujo chefe era Joaquim Gonçalves, sobrinho de Aleixo. O acampamento tinha cerca de cento e tantos homens, muitas mulheres, velhos, moças e crianças, caboclada que foi arrebanhada com tudo que possuia, gado, mantimento, galinhas, roupas, e trazida para ali, a viver quase ao relento, uma vida de porcos. Além dos homens, algumas mulheres também sabima manejar a espingarda e a faca, todos preocupadissimo com o monge José Maria, com a virgem Maria Rosa e com a monarquia. Á tarde houve uma espécie de reza que terminou por vivas aos santos e ao imperador que teria de vir logo que matassem os soldados de Corte. Á noitinha, Joaquim Gonçalves mandou-me com doze homens fazer guarda ao caminho que dava para o acampamento. Fiz guarda durante quarenta e oito horas. Ao voltar, indaguei por que não iam ao encontro dos soldados? Responderam-me que não era preciso, que os soldados iriam até lá e então se tornava muito fácil bate-los. Parece-me que a pergunta produziu suspeita, porque, horas passadas, fui transferido para o acampamento geral, que obedecia ao acampamento de Elias Moraes. No acampamento geral residia a virgem Maria Rosa, a santa que tudo sabia porque lhe inspirava o monge José Maria, que depois de morto, só aparecia á Maria Rosa. Esta era uma menina de dez anos, que não sabia ler nem escrever, mas possuia uma vivacidade extraordinária. Pálida, raquititica, olhos pequenos e pardos, cabelo castanho, dizia; com a maior convicção, representação, representar a vontade do monge que só a ela, e mais ninguém, comunicava os seus desejos. Na realidade, acrescentava Alemãozinho, a menina Maria Rosa, que chamavam a virgem era uma embusteira, industriada por Elias Moraes caboclo muito sabido. No acampamento geral foram distribuidos todos os retratos do monge dos quais eu era o possuidor. Poucos dias depois fui escalado para, com um piquete de vinte e cinco homens, percorrer os caminhos de Campinas Vieira e Queimados. Recebi a ordem com grande prazer; pois, afinal, arranjaria um jeito de me safar do meio daquela gente. Batendo as estradas encontrei-me com o carroceiro Pepe, de Papanduva, meu velho conhecido. A este inteirei do meu intuito de fugur dos fanáticos e procurar as autoridades, ás quais poderia servir de vaqueano. Pepe censurou-me, dando-me a notícia de que havia ordem terminante de me matarem; que eu não facilitasse; que seria morto logo que entrasse em Papanduva; que lá todo mundo me julgava criminoso, autor de muitas mortes, e bandido terrivel. Ouvi a Pepe, um tanto supreendido, e fazendo-lhe saber que essas notícias eram invenções de pessoas que andavam a morrer de medo, pedi-lhe para ser portados dum bilhete meu ao comandante do destacamento em Papanduva; nesse bilhete eu solicitei garantias de vida e licença para me entender com o delegado, acrescentenado que iria completamente desarmado, podendo ser revistado. Pepe foi. Seria uma hora da tarde. Não voltou até á noite. Não voltou mais. Aos meus homens, para não desconfiarem, expliquei que estava tramando meio de tomar Papanduva aos soldados da polícia. Pepe, não tendo voltado, regressei ao acampamento, onde permaneci até ser chamado por Maria Rosa, qe me nomeou chefe dum acampamento, que com o pessoal de Joaquim Gonçalves, eu devia armar em Serra Nogueira, preparando-me para, com outros chefes atacar Papanduva, Canoinhas e Rio Negro. Joaquim Gonçalves não concordou em ceder-me o seu pessoal e foi entender-se com Maria Rosa. Fiquei, por isso, apenas com trinta homens, na Serra Nogueira, enquanto Tavares, Ignacio Vieira e Marcello Alves faziam acampamento em Campina Vieira. Feito este grande acampamento, recebia ordem para sair de Serra Nogueira e ir a Campina Vieira incorporarme aos referidos chefes. Obedeci. De Campina Vieira fui mandado a, com minha gente e Ignacio Vieira também com o seu pessoal, tomar e ocupar Papanduva. Nas proximidades de Papanduva, enviei um proprio avisar á população que ia entrar na localidade com os meus quinhetos homens. A este aviso, as forças lá estacionadas fugiram

Em verdade, confessa o Allemãozinho, “Nós éramos duzentos; mas, para evitar combate e derramamento de sangue, fiz um aviso mentiroso que surtiu bom resultado. De Papanduva marchei com vinte homens sobre a Lucena. Em caminho encontrei Tavares, que cercava a propriedade do velho Furtado, a quem desejava prender. Tavares é inimigo pessoal de Furtado e pretendia exercer alguma vingança. Furtado havia fugido e deixado a família em casa. Quando cheguei, Tavares estava intimando, sob pena de morte de todas as pessoas da família e incêndio da casa, a lhe denunciar o esconderijo do velho. Intervim, garantido a Tavares que Furtado estava oculto em Rio Negro e que não seria possível a família dar-lhe informações certas. Tavares desistiu da perseguição e viemos, ele e eu, á Lucena, onde não encontramos nenhum soldado. Tavares não quis ficar e retirou-se logo, horas depois, com a sua gente. Sós com os meus homens, sabendo Aleixo acampado em Arroio Fundo com trezentos combatentes, lembrei-me aplicar o mesmo processo de mentira com que afugentei as forças do governo em Papanduva, para obriga-lo a afastar-se. Deste modo, escrevi a Aleixo, dizendolhe que em Lucena existiam mil e quinhetos soldados e que eu ia deixar Papanduva, retirandome, devendo ele se acautelar, e se pudesse, retirar quantos antes. De fato, deixando alguns homens na localidade, sai de Papanduva e seguia a Rio Negro. Chegando nesta cidade, fiz o comandante do destacamento da polícia saber que eu desejava me entregar e pedia garantias de vida; Feito isso fiquei esperando a resposta lá no alto, fora da população. Soube mais tarde que a minha presença alarmou aos habitantes da cidade, havendo muitas famílias fugido ás pressas para Curitiba. O comandante da policia não me respondeu coisa alguma. Diante do seu silêncio deixei os meus homens, que eram cinco, e, sozinho, vim para entrar na cidade e falar com as autoridades. Na ponte, porém, dois populares avisaram-me de que seria recebido a bala e a aconselharam-me a voltar. Pensei um pouco e tornei o passo atrás. Á noite conversava em casa dum amigo, quando escuto ruido fora. Vou verificar e encontro Paulo Schmidt, um carroceiro dado á embriaguez, aqui de Rio Negro, acompanhado de um grupo de homens. Ao defrontarmo-mos, Paulo Schmidt dispara o seu revolver contra mim, uma vez errando o alvo. Defendendo-me, fiz a mesma coisa, tomando-o morto, com um tiro do meu revólver. Os companheiros de Paulo fugiram espavoridos. Em seguida retornei a Papanduva, a Lucena e a Campina Vieira, onde passei dois meses, findos os quais, lendo uma proclamação do general Setembrino, prometendo garantias de vida a todos que depuzessem as armas e se entregassem, fui a Canoinhas, depus as armas e me entreguei ao coronel Onofre. Em poder deste militar, auxiliei na organização do mapa dos redutos e conseguiu que depuzessem as armas e se entregassem, cerca de oitocentos homens. Levaram-me, após, á presença do general Setembrino, a quem narrei ter matado um homem em Rio Negro. O general Setembrino perdoou-me do crime, que disse ser militar, e, por consequência, estar na sua alçada o perdão, dando-me ainda duzentos mil réis em dinheiro, para as minhas despesas, porque eu lhe confessei a minha absoluta falta de recursos. Já conhecido e amigo das forças do Exército, fiquei com elas. Um dia fui convidado pelo tenente Fabricio, do 56º [Batalhão] de caçadores, para servir de vaqueano até a Serra Nogueira. Fui. De lá parti sozinho para Canoinhas para tomar o trem e vir a Rio Negro, certo como estava de minha segurança e ainda garantido por um salvo-conduto que me deu o general Setembrino. Em caminho fui alvejado pela gente de José Ruivo, um vaqueano que é meio chefe político em a zona. Os tiros não acertaram e o pessoal fugiu da emboscada em que estava. De Canoinhas embarquei para o Rio Negro, que é aqui, onde, na estação, me prenderam e me conduziram á cadeira em que me acho encarregado”.

– Agora, dissemos-lhe, que já nos historiaste os teus episódios, vais responder-nos algumas perguntas. – Pois não, satisfaz-nos o “Allemãosinho”. – Qual o chefe de maior prestigio entre os fanáticos? – É o Joaquim Deodato, fazendeiro, instruido, que operou na passagem do Caçador, derrotando a coluna do coronel Estillac, da primeira avançada; traçou o plano de retirada do reduto Santa Maria, tomado pelo capitão Potyguara, depois de um resistência vantajosa. – Mas já não estavas preso ao sobreviverm estes acontecimentos? – Estava, porém, sei como se passaram. – Joaquim Deodato estará vivo ou morto? – Não sei. Por que foi vantajosa a resistência do reduto Santa Maria? – Porque o Joaquim Deodato, quando as forças se aproximaram, incendiou as casas, tirou a sua gente e, contornando o terreno, atacou os soldados, que ficaram entre as labaredas do fogo perfeitamente visiveis, a descoberto, e as balas dos fanáticos que tendo se retirado do reduto, foram, por trás, do escuro do mato, dizima-los. – Então o capitão Potyguara…. – É o mais valente de todos os comandantes. As forças permaneceram sempre estacionadas em Canoinhas e Porto da União, sem agir, parecendo receiosas, longo tempo. Chegando o capitão Potyguara, tudo mudou. Todos os dias ele, á frente de uma pequena coluna, foi lutando, na ofensiva, contra os fanáticos, batendo-se aqui, batendo-se ali, como quem alarga um círculo, até que os seus colegas começaram a batalhar, a entrar francamente em fogo. Depois deste penoso trabalho do capitão Potyguara as colunas dos coronéis Onofre e Julio César iniciaram-se na peleja positiva, sendo a confiada ao capitão Potyguara e ao coronel Lage, da polícia do Paraná, mais audaciosas e deste temida. A do coronel Julio César a bem dizer, não combateu, confiando sempre na coragem e na astucia dos vaqueanos. A ele, contudo, deve-se o trabalho da rendição de dois ou três redutos, sem que houvesse peleja séria. A única vez que entrou em linha de combate; que entraria em linha de combate foi quando ia agir combinada com a de Potyguara e Lage contra o reduto de Santa Maria. Para isso a coluna partiu com dois dias de dianteira sobre a outra. Mas o coronel Julio César, ao se aproximar, no seu último dia de marcha, tomando informações com a mulher de um tal Schmidt, farmaceutico, desviou-se do rumo e deixou que a outra coluna avançasse e combatesse primeiro sozinha. – E o general Setembrino?

– Ele é muito previdente; as forças andaram tão bem vestidas e alimentadas que até os soldados tomavam chá, leite condesado, bolacha e biscoitos, á noite; usando palitos depois das fartas, quase opiparas refeições do dia. – E nos combates? – Isso, não: ele nunca saiu de Porto União; nunca foi a qualquer ponto onde se tivesse dado ou se estivesse preparando um combate. – E a causa dessa agitação, qual é? – É a questão de limites entre o Paraná e Santa Catarina. – Só? E qual dos dois tem razão? – Não sei. Acho que só. O caboclo, que tem os seus pagos por ai, quer saber a que autoridade deve prestar obediência e quem lhe dá leis; vem um e diz que é o Paraná; vem outro e diz que é Santa Catarina; e ele vai se atrapalhando e se irritando, uma vez sem poder prestar atenção a dois governos a um tempo; outra, não podendo se recorrer a nenhum governo, porque tanto um como outro não o acolhe, não o protege. Dai, a habilidade do Tavares em desevolver a propaganda monarquica prometendo um imperador amigo da Alemanha, no que se mostra mais hábil ainda, porquanto a grande parte dessa gente descende de alemães e polacos, e, quando não é de sangue germânico, está presa á gaveta de comerciantes alemães de Joinville, S. Bento e São Francisco, cidades catarinenses, inteiramente germanizada. E o Tavares tem bons auxiliares nesse trabalho levantando facilmente muitos homens em armas. – E o Aleixo? – Esse fala em milagres: recorda a santidade do monge José Maria, que se sacrificou pela prosperidade e bem estar da caboclada e concita a vingança. Aleixo é também curandeiro, o que lhe faculta certo prestigio pessoal entre o povo do sertão. – E os outros? – Cada um apresenta-se com o seu pretexto para iludir aos simples habitantes destas regiões, que á falta de polícia, se foram consistindo em velha-couto de aventureiros e criminosos vindos dos Estados vizinhos, principalmente Paraná e Santa Catarina. – Para onde foram o Tavares e o Aleixo? – Não sei. Escaparam á ação do Exército. Andam por ai… Aqui, fechamos a entrevista com o curioso personagem da revolução no Contestado, registrando, exclusivamente, as suas palavras, sem uma frase de comentário.

Induziram-nos a esta viagem a Rio Negro as festas que em Curitiba se realizaram a chegada do general Setembrino, homenagem – segundo as epigrafes berrantes das folhas curitibanas – homenagem ao heroico pacificador do Contestado. Pisando o solo daquela cidade que Santa Catarina quer partir pelo meio, dando uma parte ao Paraná, a primeira notícia que tivemos, de pessoas fidedignas vindas da zona adiante, afirmava que os fanáticos impediam a ida de Canoinhas a Serra dos Vieiras. Ouvindo-a, ficamos a pensar nos paradoxos da existência moderna em que as decepções consagram celebridades e, vagamente, passou-nos pela imaginação a figura marcial e hilariante de Dom Quixote de la Mancha…. Referências FORJAZ, Djalma. Centenário da Colonização Alemã em Rio Negro e Mafra (1829-1929). São Paulo: Empreza Editora Olivero, 1929. SOUZA, Cassio. Alexandre. Resquícios do Conflito do Contestado (1912-1916): O Julgamento de Henrique Wolland, o Alemãozinho. Revista NEP (Núcleo de Estudos Paranaenses) – UFPR, v. 2, p. 55-78, 2016. Fontes O IMPARCIAL – Diario Illustrado do Rio de Janeiro. A Agitação no Contestado “Allemãozinho”, um dos chefes dos bandoleiros, em Rio Negro, é entrevistado pelo “O Imparcial”: As suas revelações interessantíssimas. Rio de Janeiro. Data: 24 ou 31 de Maio de 1915. Ano: IV. Número: 880. Página 4. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=107670_01&PagFis=10850&Pesq=He nrique%20Volland. Acesso em: 11 jan. 2018.

  1. Possuí graduação em História pela Univille. Email rjnrafa@hotmail.com
  2. Setembrino de Carvalho foi um militar do Exército brasileiro atuando em várias campanhas, entre elas a Campanha do Contestado. Em setembro de 1914, assume o comando de operação militares no conflito. Setembrino ficou de 12 de setembro de 1915 a 9 de março de 1915 como comandante do 11ª RM em Curitiba. Logo depois foi nomeado como comandante da 2ª Circunscrição Militar, em abril de 1915, para pacificar os estados do Paraná e Santa Catarina. Permaneceu até dezembro de 1915 quando os caboclos foram completamente derrotados.
  3. Em alguns registros aparece também como José Paulo Schmidt. Teria sido lavrador e militante da causa dos fanáticos.
  4. Quem quiser saber mais sobre o julgamento de Henrique Wolland, consulte o trabalho do historiador Cássio Alexandre de Souza intitulado: Resquícios do Conflito do Contestado (1912-1916): O Julgamento de Henrique Wolland, o Alemãozinho. Revista NEP (Núcleo de Estudos Paranaenses) – UFPR , v. 2, p. 55-78, 2016.
  5. Joaquim Ferreira Do Amaral e Silva nasceu em 1875, na cidade da Lapa no Paraná. Filho de família tradicional, teve como pai o Coronel Seraphim Ferreira de Oliveira e Silva e mãe Júlia Moreira do Amaral. Na Escola Politécnica de São Paulo graduou-se como Engenheiro Geógrafo no ano de 1899. Nesse mesmo ano casou e foi morar em Rio Negro. Trabalhou na cidade como Comissário de Terras, até 1919. Joaquim Ferreira do Amaral foi um político atuante como descreve Djalma Forjaz em seu livro Centenário da Colonização Alemã em Rio Negro e Mafra, chegando ao cargo de prefeito: “Em 1905, foi suplente do Juiz Federal e Camarista no quatriênio de 1904 a 1908, ocupando também a Presidência da Câmara. Representou Rio Negro no Congresso do Estado no biênio de 1906 a 1908. Em 1912 foi eleito novamente camarista, tendo substituído o Prefeito local. Foi Vice-Presidente do Estado no quatriênio de 1916 a 1920, tendo sido Prefeito do Rio Negro, neste mesmo quatriênio e administrado o município com desvelado zelo e dedicação. (FORJAZ, 1929, P. 131)”. Com o movimento de 1930, que alçou Getúlio Vargas a presidência no Brasil, Joaquim acabou retornando ao cargo de prefeito ficando de 6 de outubro de 1930 a 5 de dezembro de 1935.
  6. Nota do autor: está um pouco ilegível e um pouco apagado, deduzo “dia.”
  7. Nota do autor: Está muito apagado e não tem como especular qual seria a palavra.

Referências

  • FORJAZ, Djalma. Centenário da Colonização Alemã em Rio Negro e Mafra (1829-1929). São Paulo: Empreza Editora Olivero, 1929.
  • SOUZA, Cassio. Alexandre. Resquícios do Conflito do Contestado (1912-1916): O Julgamento de Henrique Wolland, o Alemãozinho. Revista NEP (Núcleo de Estudos Paranaenses) – UFPR, v. 2, p. 55-78, 2016.
  • O IMPARCIAL – Diario Illustrado do Rio de Janeiro. A Agitação no Contestado “Allemãozinho”, um dos chefes dos bandoleiros, em Rio Negro, é entrevistado pelo “O Imparcial”: As suas revelações interessantíssimas. Rio de Janeiro. Data: 24 ou 31 de Maio de 1915. Ano: IV. Número: 880. Página 4. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=107670_01&PagFis=10850&Pesq=He nrique%20Volland. Acesso em: 11 jan. 2018.
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