O medo de infecção da Febre Amarela e Varíola em 1878

Origens históricas

   Segundo o documento “Joinville – Cidade em dados 2015” organizado pelo IPPUJ (Instituto de Pesquisa e Planejamento para o desenvolvimento sustentável de Joinville) a área onde se originou a colônia Dona Francisca que posteriormente transformou-se na nossa cidade, foi uma exigência contratual entre a companhia colonizadora de Hamburgo e o Príncipe de Joinville. Entre 1845 e 1846 as terras foram medidas e chegou-se ao valor de oito léguas quadradas, com a supervisão do Major de engenheiros Jerônimo Francisco Coelho. Por conta da revolução de 1848 e o exílio do príncipe de Joinville com Dona Francisca, as terras foram vistas como forma amenizar suas despesas. Com vista a promover um contrato de colonização, foi fundada em Hamburgo a “Sociedade colonizadora de Hamburgo de 1849” efetivada pelo senador Christian Matias Schroeder. As negociações se concluíram em 5 de maio de 1849 gerando um contrato de exploração das terras, que objetivava introduzir 1.500 colonos num prazo de cinco anos.

Joinville, início do séc. XX.

Tal contrato foi aprovado pelo decreto Imperial nº 537 de 15 de maio de 1850, tendo sua prorrogação por mais cinco anos por meio do decreto nº 712 de 16 de setembro de 1853. Decretos posteriores continuaram a renovar o contrato. No dia 6 de março de 1851 os colonos chegam até São Francisco do sul e no dia 9 de Março aportam na Colônia Dona Francisca e dias depois em 15 de março de 1851, seis dias após a chegada dos imigrantes é feita as vendas de terras. Vale dizer que as terras vendidas pela companhia colonizadora não tinham um tamanho padrão. Variavam em cada processo de compra e venda.

Maria Cristina dias mostra que há outras hipóteses do dia da chegada dos imigrantes, tradicionalmente cravada no dia 9 de Março de 1851. Segundo ela por muito tempo o que valeu como data oficial foi o dia 10 de Março para o Império brasileiro, haja vista que neste dia, efetivamente começaram os trabalhos administrativos. Ela cita ainda o relato de Carlos Ficker que afirma ter sido no dia 8 de Março.

Joinville vai se desmembrar de São Francisco do Sul e ser elevado à categoria de Município em 1866 pela Lei Provincial nº 566 de 15 de março 1866 com o nome de São Francisco Xavier de Joinville, depois se tornando só Joinville sendo elevado a município em sete de Janeiro de 1869. Em 3 de maio de 1877 pela Lei Provincial nº 842 ganha o título de cidade.

Doenças, epidemias e o fechamento das fronteiras com São Francisco do Sul

Porto São Francisco do Sul. Início do Sec. XX.

Em 1878, ano do fato curioso, Joinville já tinha portanto o status de município e cidade, e já fazia quase três décadas da chegada dos imigrantes.

      O século XIX segunda a professora Sandra Guedes é um momento que podemos perceber uma grande relação com a morte. Em Joinville o catolicismo e protestantismo eram nesse momento as duas linhas religiosas que guiavam o pensamento do imigrante em Joinville. Destarte, para essas religiões a morte era uma chance de se salvar e conseguir a vida eterna. (GUEDES, 2005, p. 31). Ela continua dizendo que no século XIX, sem a medicina avançada como hoje em dia, a fronteira entre viver e morrer era muito frágil. Quando se tinha a notícia de uma doença, ainda que pareça algo normal nos dias de hoje, nesse período, a questão era vista com temor. A morte parecia certa. Imaginemos a agonia que era para esses imigrantes, o medo da morte. Deste modo o imigrante tinha de conviver com o sentimento de perder amigos e parentes, já longe dos seus. A sensação era horrível e ao mesmo tempo cotidiana, não havia o que fazer. (GUEDES, 2005, p. 30).

     As epidemias eram comuns, sobretudo nas áreas portuárias, de onde viam os imigrantes de vários lugares do mundo. Nossa cidade vizinha São Francisco do Sul, não fugia a regra, somado a isso ser próximo de Joinville, potencializava a chance de doenças entrarem em Joinville. Nossa cidade também era atingida por notícias de epidemias, deixando a população com medo. A professora Sandra Guedes nos fala que o único jeito de tentar minimizar era o isolamento.

     Em 1878, temos o fechamento total das entradas entre as cidades devido a uma grande epidemia de febre amarela e varíola. O jornal Gazeta de Joinville de 12 de Março de 1878, mostra um pouco desse ambiente:

Estado Sanitário

Notícias assustadoras circulam há poucos dias na cidade. Dizem que a febre amarela aparecera na cidade de S. Francisco, escolhendo por primeira vítima o padeiro alemão G. Konig, que adoecido de uma febre forte sucumbiu à ela no 2º dia apesar de todos os esforços médicos.

[…] fato porém é que nos últimos dias se tem dado em São Francisco algumas mortes repentinas e que bom número bom de pessoas tem sido atacado de uma febre violenta. Acautelem-se por tanto todos e recorrem aos primeiros ainda que duvidosos sinais à sciencia médica, e a comissão sanitária da Câmara municipal tome em tempo medidas preventivas […]


GAZETA DE JOINVILLE, 12 de Março de 1878, p. 3

Vemos na notícia possivelmente um imigrante sendo vitimado em São Francisco do Sul. É sintomático a parte “apesar de todos os esforços” não foi suficiente para curar ele. Guedes nos chama atenção sobre ele ter morrido em apenas dois dias. Além do fato de ser um alemão em uma cidade, com população baixa dessa etnia. O pânico deveria ser grande como pode-se ver na descrição na edição seguinte do dia 19 de Março: “O aspecto da cidade é horroso, o pânico geral e tem saído muitas famílias da cidade. – Mas também delas sucumbiram algumas; já tinham casos de morte na terra firme, como nos Espinheiros no Sertão e no Itapocú. ” (GAZETA DE JOINVILLE, 19 DE MARÇO DE 1878). Como já foi dito o receio de morte era grande entre os imigrantes num tempo que qualquer doença era motivo de preocupação. Mesmo com o apego a morte e ao religioso na falta de tratamentos mais avançados, é pedido que se reporte a um médico tendo algum sinal e a comissão sanitária.

     Na mesma edição o jornal Gazeta de Joinville apresenta um edital da comissão sanitária da Câmara Municipal de Joinville com medidas para frear a entrada da epidemia em Joinville, entre elas a obstrução das entradas entre Joinville e São Francisco do sul:

Será colocada uma estação de vigilância sobre o rio Caxoeira, perto do Morro do Ouro, funcionando a mesma em uma lancha, com todos os preparos para a desinfecção. […] § 3. Os mesmos estacionários não deixarão passar para esta cidade pessoal alguma residente em São Francisco, salvo por ordem expressa da comissão; nem também a quem vier de outra qualquer parte do litoral, quando não apresentar certificado de haver feito quarentena no logar competente da barra de S. Francisco.


GAZETA DE JOINVILLE, 12 DE MARÇO DE 1878,

     As diretrizes eram claras, seria colocado uma estação de vigilância no rio Cachoeira como barreira para desinfetar se fosse preciso. Não poderia vir ninguém de São Francisco do sul a não ser com autorização, até mesmo de outras partes de litoral, salvo comprovar ter feito quarentena e desinfetado, não oferecendo riscos à cidade.

     As medidas de fechar as fronteiras tiveram o resultado esperado, segundo Guedes, pois naquele ano, não tivemos registro de febre amarela e varíola em Joinville. Contudo prejudicou muito São Francisco do Sul que sofreu muito com a doença e ficou no ar o sentimento de decepção por Joinville ter de certa forma ficada indiferente e não ajudando a cidade vizinha, mesmo com o envio de dinheiro e alimentos. (GUEDES, 2005, p. 39). Joinville não ficou isenta de reclamações das autoridades sobre a cidade ter se fechado e não apoiar São Francisco do Sul com seus recursos.

Recorrendo novamente a Gazeta de Joinville que nos é apresentada pela pesquisadora Sandra Guedes de 2 de abril de 1878, um mês e meio mais ou menos depois desse surto de febre amarela, o jornal nos fornece um balanço da epidemia em São Francisco do Sul. Ele fala em 55 mortes e dentro desse número 9 seriam alemães. Em 23 de Abril o jornal apresenta mais números

GUEDES, 2005, p. 40

Notícias locais

De 3 de Março á 13 de Abril sucumbiram à febre amarela naquela cidade 78 pessoas, entre as quaes se destacam nestes últimos dias os últimos os nomes dos Snrs. Dr. Chautard, Delegado de polícia Bompeixe, Carlos Samselius e o enfermeiro do hospital que tinha prestado muitos serviços. De todos os habitantes de S. Francisco só 90 foram atacados pela terrível moléstia.

GAZETA DE JOINVILLE, 23 DE ABRIL DE 1878

     Os números são bem expressivos, se pensarmos que a população não tão alta neste momento. Caso o jornal não tenha exagerado ao dizer que apenas 90 pessoas não foram afetadas pela febre amarela, temos uma das piores epidemias da região, já que Guedes diz que São Francisco do Sul possuía “mais de 15 mil pessoas” (GUEDES, 2005, 1977). Eu busquei os relatórios dos presidentes da província de Santa Catarina de 1878 e 1879 e não encontrei dados sobre São Francisco do Sul para comparar. Fazendo uma conta rápida da porcentagem de pessoas infectadas, partindo desse número aproximado de 15 mil pessoas, chegamos a incríveis 99,4% de francisquenses atingidos.

ReferênciaS

  • DIAS, Cristina Maria. Joinville – Uma história repleta de detalhes. Disponível em: http://mariacristinadias.com.br/historias/joinville-uma-historia-repleta-de-detalhes/. Acesso em: 11 mar. 2017.
  • CUNHA, Dilney Fermino. Uma história da Nossa cidade. Disponível em: http://www.jornaldaeducacao.inf.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1616#myGallery1-picture%2812%29. Acesso em: 24 mar. 2016.
  • FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DE JOINVILLE – IPPUJ (Org.). Joinville Cidade em Dados 2010/2011. Joinville: Prefeitura Municipal de Joinville, 2011, 194p. Ilustrada.
  • FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DE JOINVILLE – IPPUJ Joinville – Bairro a Bairro Joinville: Prefeitura Municipal, 2013, 192p.
  • FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DE JOINVILLE – IPPUJ (Org.). Joinville Cidade em Dados 2015. Joinville: Prefeitura Municipal de Joinville, 2015, 180p. Ilustrada.
  • GOULARTI FILHO, Alcides. A Estrada Dona Francisca na formação econômica de Santa Catarina. História Revista (UFG. Impresso), v. 19, p. 171-196, 2014.
  • GUEDES, Sandra Paschoal Leite Camargo. A Colônia Dona Francisca: a vida…o medo…a morte. In: Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes. (Org.). Histórias de (I)migrantes: o cotidiano de uma cidade. 2ed.Joinville: Editora da UNIVILLE, 2005, v. 01, p. 11-48.
  • RIGOTTI, Genara. Carta aos Futuros Joinvilenses. Disponível em: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/cultura-e-variedades/pagina/carta-aos-joinvilenses/ Acesso em: 11 mar. 2017.
  • SOUTO, Américo Augusto da Costa. Industrialização de Santa Catarina: O vale do Itajaí e o litoral de São Francisco, das origens ao mercado nacional (1850-1929). In: BRANCHER, Ana (org.). História de Santa Catarina: estudos contemporâneos. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004, p. 115-147.
  • Autor: Rafael José Nogueira. Graduado em História pela Univille.

Para quem quiser ler as notícias da época, é só consultar a hemeroteca da biblioteca nacional e consultar as seguintes edições:

  • JORNAL GAZETA DE JOINVILLE. Ano I – Nº 24, Joinville, 12 de Março de 1878;
  • JORNAL GAZETA DE JOINVILLE. Ano I – Nº 25, Joinville, 19 de Março de 1878;
  • JORNAL GAZETA DE JOINVILLE. Ano I – Nº 27, Joinville, 2 de Abril de 1878;
  • JORNAL GAZETA DE JOINVILLE. Ano I – Nº 24, Joinville, 23 de Abril de 1878.
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