Joinville – Censo de 1872

O censo demográfico do Brasil de 1872 foi a primeira operação censitária realizada em território brasileiro, à época imperial. Foram recenseados todos os moradores em domicílios (chamados de “fogo”) particulares e coletivos e que se encontravam nele na data de referência do censo que foi o dia 1º de agosto de 1872. A distribuição da população se fez segundo a cor, o sexo, o estado de livres ou escravos, o estado civil, a nacionalidade, a ocupação e a religião.

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Censo e História

Em 1851 Dom Pedro II decreta que o império deveria organizar o censo geral do território e também iniciar os trabalhos de registro civil. O argumento era que o governo precisava conhecer melhor o Brasil com dados mais confiáveis. Existia uma massa considerável de negros alforriados e brancos pobres que viu no censo uma chance de reescravização para os primeiros e escravização para os segundo. O resultado foi uma pressão popular gigantesca entre 1851 e 1852 forçando o império a suspender o censo e o registro civil em Janeiro de 1852. Somente 20 anos depois em 1872 com todas as dificuldades foi realizado o primeiro em nosso país. E a nossa cidade foi contemplada e tivemos a sorte do documentado ter chegado aos dias atuais mesmo que em um estado um pouco ruim de visualizar os dados. Vamos a eles.

População livre

Em 1872 Joinville eram um município recém-instalado com pouco mais de três anos. Longe de ser a cidade populosa que era hoje em 1872 aparece o total geral de 7 650 habitantes. Sendo 7 575 livres e 75 escravos.


Comecemos pela população livre. Há um certo equilíbrio na distribuição por sexo com leve vantagem para os homens. A maior dos homens e mulheres eram solteiros, dentro do projeto de colonização. Isso é, muitos viam em definitivo sem família para começar uma vida nova. Havia um percentual considerável de casados em ambos os sexos, mas eram minorias. Havia ainda casos isolados de viúvos entre os homens e casos mais acentuados entre as mulheres. Isso nos leva a pensar que pode ter ocorrido vários casamentos por etnia ou internético, sobretudo entre descendentes de lusos e germânicos. Infelizmente da população nativa os dados são mais escassos. Já em relação aos negros escravizados e libertos aparentemente não saíram do seu grupo étnico na direção dos matrimônios.


Como os imigrantes vinham de regiões fortemente influenciados pelo protestantismo na linha luterana não é de se estranhar que entre os homens esteja próximo dos católicos e com um percentual a se considerar entre as mulheres.

No quesito raça/etnia entre os livres a branca lidera com folga frente aos outros grupos. Como previsto no projeto de colonização os homens são em maioria estrangeiros e as mulheres são em minoria mas com pouco desvantagem em relação as brasileiros.


Ser alfabetizado era privilégio de poucos. Frequentar uma escola e ser letrado era mais restrito ainda. O analfabetismo aparece em destaque seja entre homens e mulheres. O viajante e missionário James Cooley Fletcher destacou em seu livro: “[…] O povo é pobre, e pertecendo muitos delas às classes mais baixas na Alemanha”. (KIDDER, Daniel Parish; FLETCHER James Cooley. O Brasil e os brasileiros. Brasil: Editora Nacional, 1941, p. 39). O mesmo sintoma se repete entre as crianças e adolescentes no que o censo chamou de “População escolar de 6 a 15 anos”.

Por fim tinhamos 1 449 casas e praticamente todas as habitadas.

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População escrava

A população escravizada assim como a população livre apresenta um certo equilíbrio na distribuição por sexo e eram 0,98% do total de escravos do município de Joinville. O número que mostra ser irrisório pode estar subestimado, pois era o homem e chefe da casa que preenchia a ficha do censo e pode ter ocultado escravos para fugir de impostos ou uma possível vinculação com o tráfico transatlântico proibida em 1851 por lei.


Todos os homens cativos aparecem como solteiros. Não muda muito a situação no caso das mulheres. Uma possível causa é que os seus donos tinham preferência por comprar escravos solteiros temendo fugas e uma vez estes sendo sua propriedade eram impedidos de casar pelo seu senhor. Um senhor de escravo que se prezasse deveria estar à frente e saber que um casamento gera uma família maior e laços afetivos fortes e como negócios são negócios, podia muito bem acontecer como era comum de o senhor querer vender o filho ou a esposa desse escravo e novamente correr o risco de se ver vítima de fugas ou pior que o escravo libertasse outros. Em resumo um dono de escravos não podia criar um escravo insubmisso trazendo prejuízos financeiros.


A religião traz o resultado curioso de 100% de católicos para todos os cativos. Como foi dito era o homem, o chefe da casa que prestava as informações no formulário do Censo e como os escravos eram sua propriedade era esperado que fossem obrigados a seguir seu credo religioso. É do conhecimento que os submissos acessavam suas religiões de origem ainda que escondidos e ao mesmo a religião do seu senhor. Em muitos casos sincretizavam costumes e rituais do Candomblé e da Umbanda com o catolicismo. Um exemplo conhecido é releitura dos Orixás com os santos católicos: Ogum, o Orixá da guerra seria São Jorge e seu Dragão só para citar um caso.


Os negros sejam homens e mulheres tinham a dianteira entre os escravos no quesito raça/etnia. Na mesma direção segundo o Censo praticamente todos eram crioulos, ou seja, nascidos no Brasil. Tendo dois casos em cada sexo registrados como “escravos de nação”. O crioulo era menos mal visto do que os escravos vindos da África que a esta altura eram cada mais raros com o movimento contra o tráfico internacional de escravos pela lei Eusébio de Queiroz de 1850 e a lei até então recente de 1871 chamado de “Lei do Ventre Livre”. Quando conheciam os costumes brasileiros e acessavam ainda que minimamente a língua portuguesa eram chamados pejorativamente de Negros Ladinos. Em suma um negro escravo que era esperto, malandro.


Os cativos de Joinville solteiros, todos analfabetos conforme os Censos acima flutuavam entre tentar ser um ladino e aprender a manipular os costumes e símbolos culturais, mas recaiam nas barreiras de uma sociedade que não os aceitava e se tornavam neste momento o Negro Boçal ou novo.  

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Deficientes: livres e escravos

Outro dado interessante e valioso é o de pessoas com deficiência em um contexto que via o indivíduo deficiente como um “indesejado” a ser excluído da sociedade.


A população livre masculina e feminina totaliza 58 portadores de alguma deficiência concentrando 95,0% dos casos frente aos 4,9% dos negros negras escravizados no momento do levantamento. Aliás estes só registram dois casos para o sexo masculino e um para o feminino. Dos três casos temos curiosamente um cativo aleijado e um cego e no caso único da cativa, também consta como aleijada. É interessante pensar como ficava sua condição de escravo frente as suas deficiências que os impediam de trabalhos manuais.


Entre os livres os homens ficam na dianteira com 45 casos dos 58 perfazendo 77%. Se sobressaíssem surdos-mudos e aleijados. Os primeiros provavelmente por doenças e os segundos pelo trabalho árduo de ocupação da colônia abrindo matas fechadas e construindo estradas.


É importante reforçar que os números podem esconder outra realidade. Os senhores temendo alguma punição das autoridades diante das leis ou mesmo a fiscalização de clubes abolicionistas na região podem ter ocultado informações de seus escravos. Paralelamente um escravo era uma propriedade cara e de valor, era um objeto a se cuidar. Deveria cuidar de seu cativo como se cuida de uma taça de ouro.

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Voto e exclusão

A paroquia de Joinville era a maior dentre as três abaixo. Lembrando que as eleições eram indiretas e censitárias e, portanto, excluíam boa parte da população, sobretudos os negros cativos e libertos e ainda os brancos de baixa renda fora dos critérios estabelecidos na constituição de 1824. Joinville contava com 10 eleitores. Numa conta rápida obtemos que representa 0,13% da população total de Joinville. Votar era uma riqueza e sinônimo de poder no século 19. Em 1877 o número não muda. É possível que os eleitores tenham sido fazendeiros descendentes de portugueses. Entre os candidatos: José Celestino de Oliveira, Gaspar Gonsalves de Araújo, Lourenço José de Braga, Augustinho Budal, João Leite Basto, Manuel Machado d´Oliveira, Bento Gerhardo Moreira, Luiz Budal Arins, João Gomes d´Oliveira entre outros.

Os imigrantes mesmo sendo livres, esbarravam na sua baixa renda, quase toda destinada a pagar seus lotes de terra e na alimentação de suas famílias.

Escritura de venda de escravo no cartório Rodrigo Lobo.

Números finais

A população escravizada era minoria sem dúvida, e nem por isso invisível da condição que dispunham.

Referências e notas

Nota 1: Os valores das Porcentagens são aproximados e por isso podem não resultarem em 100%.

Nota 2: Fonte dos Dados

Fonte dos números de 1872 – BRAZIL. DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. RECENSEAMENTO GERAL DO IMPÉRIO DE 1872. Quadros gerais. Recenseamento da população do Império do Brazil a que se procedeu no dia 1º de agosto de 1872. Typografia de Georges Leuzinger e Filhos, Rio de Janeiro, 1872.

Fonte dos números de 1877 – BRAZIL. DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Relatórios e Trabalhos estatísticos apresentados ao Illm. e Exm. Sr. conselheiro Dr. José Bento da Cunha e Figueiredo, Ministro e Secretário de Estado e Negócios do Império pelo Diretor Geral Conselheiro Manoel Francisco Correia em 31 de dezembro de 1876. Rio de Janeiro, Typografia de Hypólito José Pinto, 1877.

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