Fernanda Montenegro – 90 anos –A Bruxa da Leitura do século XXI

Nasceu Arlette, mas seu nome de guerra é Fernanda Montenegro. Fez a sua vida em cima do palco do teatro. Hoje completa 90 anos de idade e alguns cinquenta e poucos de atuação como atriz de teatro, cinema e televisão. Além de ser chamada de Grande Dama de Teatro, título que não gosta de ser chamada, responde que faz tudo com dedicação e amor. Uma personagem de 1000 brasileiras, 1000 mulheres, 1000 formas diferentes de atuar e sempre encontrado a perfeição em tudo que faz em seu trabalho.

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Fernanda Montenegro

Parabéns Fernanda Montenegro. Deixo a minha homenagem ao exemplo de ser humano e pessoa que você tornou e que nós, à admiramos.

Arlette Pinheiro Esteves

Nasceu em casa, com auxílio da parteira na rua Alaíde no dia 16 de outubro de 1929 na cidade de Campinho no estado do Rio de Janeiro, com o nome Arlette Pinheiro Esteves da Silva. Seu pai Vitório Esteves da Silva marceneiro, filho de portugueses dos Açores, e sua mãe Carmen Nieddu Pinheiro Esteves da Silva, dona de casa, filha de italianos da Sardanha.

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Fernanda Montenegro quando criança. Foto: Acervo Fernanda Montenegro

Infância e Adolescência

Cresceu no sitio de seus avós junto com suas outras duas irmãs. Seu avô materno Pietro Nieddu, junto com outros imigrantes ajudaram a construir Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com seus 8 anos participou de um pequeno teatro, atrás da igrejinha que morava, onde pisou pela primeira vez no palco. Sabia que desde aquele primeiro passo, já seria algo que seguiria para o resto da vida. Com doze anos de idade, conclui seu primário e dedica-se a formação para o trabalho, matriculando-se no curso de secretariado Berlitz, que compreendia inglês, francês, português, estenografia e datilografia.

Fernanda Montenegro.
Foto: Acervo Fernanda Montenegro

 Ousadia infantil

Quando tinha 9 anos de idade, Fernanda, disse a sua mãe: “Mamãe, eu vou ser uma atriz melhor do que você, sabe por quê? Porque sou mais jovem”. A atriz lembra o episódio: “Meu pai conta que estava brincando de atuar quando falei isso. É uma profissão de enorme apelo para a criança. Falei muito pequena. E criança não sabe o que diz (risos)”.

Primeiro Emprego

Aos quinze anos no terceiro ano do curso técnico de secretariado, inscreveu-se num concurso como locutora na Rádio MEC, fator que foi decisivo para a sua carreira. O concurso, chamado “Teatro da Mocidade“, era voltado a despertar jovens talentos para o radialismo. Ser locutora de rádio foi seu primeiro emprego. Localizada na Praça da República (Campo de Santana), a Rádio MEC fica ao lado da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, na qual funcionava um grupo de teatro amador dos alunos da faculdade, coordenado pelo professor Adauto Filho. Ligada a Magalhães Graça e Valquíria Brangatz (também chamada artisticamente de “Neli Rodrigues”), alunos da Faculdade e colegas na Rádio, ela passa a integrar o grupo de teatro, ao participar da peça “Nuestra Natascha” interpreta sua primeira personagem, Cassona. Posteriormente, foi levada pelo professor Adauto para participar de atividades no Teatro Ginástico.

Fernanda estreia como locutora na Rádio MEC
Fernanda estreia como locutora na Rádio MEC.

Codinome “Fernanda Montenegro”

Seu primeiro papel como radioatriz foi numa obra de Cláudio Fornari (autor mais importante da época), chamada “Sinhá Moça Chorou”, na qual fez o papel da Manuela, que era uma jovem – o segundo papel feminino – que se apaixonou pelo Garibaldi.  Permaneceu na Rádio por dez anos, inicialmente como locutora e depois como atriz. A partir da rádio a pequena atriz Arlete, começou a escrever e adotou seu codinome Fernanda por ser um nome feminino muito famosos na língua francesa e o sobrenome de Montenegro, buscou referência do médico da família que atendida a todos, de uma forma milagreiro. Através deste emprego, começou a obter alguma remuneração, já que o trabalho na Rádio nem sempre era remunerado. Primeira atriz a ser contratada pelo TLC.

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Casamento de Fernanda.

Casamento – Fernando Torres

No dia 6 de abril de 1953 aos 23 anos casou-se com Fernando Torres com 26 anos. Comemoravam a união em uma pequena igreja católica de São Cristóvão. Seu vestido de noiva fora emprestado de sua melhor amiga, recém-casada, pois a atriz não tinha condições financeiras para comprar um modelo novo. 

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Familia Fernanda Montenegro, Fernando Torres com os filhos Fernanda e Claudio.

Em 1954, Fernanda se mudou para São Paulo com Fernando Torres e formaram sua própria companhia, o Teatro dos Sete com Sergio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida. A estreia do grupo aconteceu em dezembro de 1959, com a peça “O Mambembe”, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em São Paulo participavam também do “Grande Teatro Tupi”, às segundas feiras. Seu primeiro trabalho no cinema foi como dubladora em Mãos Sangrentas (1955) e depois, como atriz, estreou em A Falecida.

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Fernando e Fernanda.

Claudio e Fernanda Torres – Filhos

O casal, após passar bastante tempo tentando ter filhos de forma natural, iniciou um tratamento de fertilização, conseguindo ter dois filhos. No ano de 1962, nasceu o primeiro filho Cláudio Torres, que anos mais tarde será diretor  e no ano de 1965 deu à luz a atriz Fernanda Torres, seguindo os passos da mãe, como atriz.  

Fernanda com seus filhos.

Novelas e teatro

Em 1963 na TV RIO fez a sua estréia em novelas:  “Pouco Amor Não é Amor”. Em 1965 participou do programa “4 no Teatro” e no mesmo ano, recém criada TV Globo atuou na novela “Calúnia”, na Tupi. Em 1967, fez sua estreia na TV Excelsior na novela “Redenção”. A trama teve 596 capítulos e se tornou um marco na história da televisão brasileira. A atriz ficou na Excelsior durante três anos e depois se afastou da televisão por nove anos. Durante esses anos, ela atuou em apenas dois trabalhos: no teleteatro “A Cotovia” (1971), da Tupi, e num “Caso Especial da TV Globo, Medéia” (1973).

Fernanda Montenegro em
Fernanda na novela Baila Comigo (1981)

Sua volta à TV foi em “Cara a Cara” (1979), na TV Bandeirantes. Fernanda estreou nas novelas da Globo em “Baila Comigo” (1981), de Manoel Carlos. No mesmo ano, trabalhou em “Brilhante”, de Gilberto Braga.

Guerra dos Sexos

Foi na década de 80, um de seus maiores sucessos na televisão foi na primeira versão de “Guerra dos Sexos” (1983). Fernanda protagonizou cenas hilariantes e inesquecíveis ao lado de Paulo Autran, como os primos Charlô e Otávio, com a Guerra de Comida no Café da Manhã. Através da novela, ela ganhou o prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

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Fernanda e Paulo na novela Guera dos Sexos 1983.

Central do Brasil – Indicação ao Oscar

Através do filme “Central do Brasil” (1999), Fernanda foi a primeira brasileira indicada ao Oscar, porém não ganhou, e recebeu o Urso de Prata do Festival de Berlim, entre outros prêmios sobre a produção.

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Fernanda no filme Central do Brasil em 1999.

No mesmo ano foi condecorada pela Presidência da República com a maior a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, pelo reconhecimento dos seus trabalhos nas artes cênicas brasileiras. Na época, foi realizada uma exposição no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, comemorou os 50 anos de carreira da atriz.

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Fernanda no tapete vermelho, concorrendo ao Oscar.

O Auto da Compadecida – (Mãe de Jesus)

Primeiro veio a minissérie; depois, o filme – ambos inspirados na peça de Ariano Suassuna. Fernanda, em praticamente uma participação especial, é Nossa Senhora, a Compadecida, que, após a morte dos personagens, intervém junto a Jesus Cristo em um julgamento no céu para que eles obtenham o perdão e voltem à Terra.

Riacho Doce- Lider Espiritual

Na minissérie, a atriz vivia Vó Manuela, respeitada líder espiritual da comunidade que dava nome à trama e que exercia total domínio sobre o neto, Nô, interpretado por Carlos Alberto Riccelli, a quem ela mantinha afastado das mulheres através de magia.

Fernanda em Riacho Doce

Beijo Gay – Babilônia

Junto com a Nathalia Timberg, a atriz fez o papel de Teresa da novela “Babilônia”, que, logo no primeiro capítulo, trouxe um beijo entre sua personagem e a Estela, sua companheira há quase 40 anos. A cena foi elogiada por grande parte do público, incluindo famosos, mas também foi muito criticada, principalmente pelos mais conservadores, que pregam um boicote à trama das nove da TV Globo.

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Fernanda e Nathalia no beijo gay da Novela Babilonia.

Bia Falção – Belíssima

Um dos personagens mais lembrados da atriz na televisão é a vilã Bia Falcão. Na história, ela forja sua própria morte e comete várias maldades, justificando que faz tudo pelo bem da família. O final de Bia também é histórico: ao contrário da maioria dos vilões, ela se dá bem ao fim da trama, fugindo do país em um jatinho e terminando nos braços de seu amante, vivido por Cauã Reymond, em Paris, em uma suíte de frente para a Torre Eiffell.

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Fernanda na novela Belissima.

Criou um bordão… Pobreza, pega, pega que nem sarna…

Dona Picucha – Doce de Mãe

Dona Picucha, protagonista da série, lhe rendeu o prêmio Emmy Internacional de Melhor Atriz. A história, que nasceu como um especial de fim de ano da Globo, é uma comédia que mostra a vida e as confusões da idosa e de seus quatro filhos.

Fernanda em Dona Picucha

‘Viver Sem Tempos Mortos’

No monólogo, seu penúltimo trabalho no teatro, ela interpretava Simone de Beauvoir. Através das correspondências da escritora com o marido, o filósofo Jean-Paul Sartre, ela ia desenhando a trajetória desta mulher.

ZAZA – Filha da Aviação

Em 1997, Fernanda Montenegro mostrou sua veia cômica como a protagonista da novela das 19h, Zazá. Ela era a milionária excêntrica e extrovertida Marisa Dumont, filha do pai da aviação, Santos Dumont. Quem acompanhou a produção até hoje lembra da clássica abertura, em que a atriz voava em um 14 Bis animado, e sua trilha: “Cadê Zazá, Zazá, Zazá?”.

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Fernanda em Zaza.

Nelson e Fernanda

Nelson Rodrigues, que morreu em 1980 e era grande amigo de Fernanda, escreveu três peças para a atriz: “Beijo no asfalto” (1960), “Toda nudez será castigada” (1965) e “A serpente” (1978). Mas ela só conseguiu fazer a primeira. Fernanda era grande amiga do Anjo Pornográfico, que morreu em 1980. “Só tive a mesma paixão no lamento de uma morte quando morreu Carlos Drummond de Andrade. Eram as referências que me tocaram mais fundo”.

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Nelson e Fernanda, amigos desde sempre

Inspiradora

Milton Nascimento compôs a música “Mulher da vida” para Fernanda Montenegro. Em um trecho, há uma referência direta à atriz: “Estrela Montenegro do universo / Mulher é muito mais que mãe filha / É mais do que penso do infinito” . A canção ficou conhecida na voz de Simone e gravada em 1983.

Emmy

Finalmente no ano de 2013, Fernanda Montenegro se tornou a primeira atriz latino-americana a ganhar o Emmy (considerado o Oscar da TV). O prêmio se deu por seu impagável papel como a Dona Picucha de “Doce de mãe”.

Fernanda Montenegro ganha o Emmy
Fernanda Montenegro 2013 recebendo o Emmy

Vovó

Fernanda tem três netos: Antônio, de 6 anos, e Joaquim, de 15, frutos do relacionamento da filha Fernanda com o cineasta Andrucha Waddington; e Davi, de 14, do casamento de Claudio Torres com a atriz Maria Luiza Mendonça. Com eles, a vovó coruja viaja e faz passeios. “Não pretendo ser mãe dos meus netos. Dos meus filhos, sou a metade. Dos meus netos, um quarto. Isso não quer dizer que eles não entrem pela alma da gente como passarinhos, duendes, como anjinhos… Mas sou primeiro mãe”.

Fernanda ao lado dos netos.

Bruxa boa da leitura do Séc. XXI

Fernanda

Lutando contra ao pedido da própria Livraria Globo, acabou cedendo em montar uma bruxa na frente de uma fogueira, prestes a ser queimada por livros, representando que a leitura está cada vez mais escassa e minguada entre os leitores. Sua figura, como grande dama dos interesses da cultura e descodificação com conteúdo representa um tempo que provavelmente não teremos mais, pessoas encorajadas a ler um livro.

Fernanda e os livros para serem queimados.

“Não houve uma preparação política, ideológica… É o acaso. Aí houve essa retaguarda e, na medida em que tomou essa presença de contestação, eu assumo. Fiz o acaso, que beleza! Não se fez tão a propósito, mas, já que aconteceu a conjuminação dos astros, assino embaixo. Não se pode proibir livros”, relembra Fernanda Montenegro no programa de Fátima Bernardes no dia 11/10/2019.

Televisão

Somente na tevelisão já são mais de 55 anos atuando na telinha.

Fernanda Montenegro em Passione.
  • “Vitória” (1964)
  • “Redenção” (1966)
  • “A Muralha” (1968)
  • “Sangue do Meu Sangue” (1969)
  • “Medeia” (1973)
  • “Cara a Cara” (1979)
  • “Baila Comigo” (1981)
  • “Brilhante” (1981)
  • “Guerra dos Sexos” (1983)
  • “Cambalacho” (1986)
  • “Sassaricando” (1987)
  • “Riacho Doce” (1990)
  • “Rainha da Sucata” (1990)
  • “O Dono do Mundo” (1991)
  • “Renascer” (1993)
  • “O Mapa da Mina” (1993)
  • “Incidente em Antares” (1994)
  • “A Comédia da Vida Privada” (1995)
  • “A Próxima Vítima” (1995)
  • “A Comédia da Vida Privada” (1996)
  • “Zazá” (1997)
  • “O Belo e as Feras” (1999)
  • “O Auto da Compadecida” (1999)
  • “As Filhas da Mãe” (2001)
  • “Pastores da Noite” (2002)
  • “Esperança” (2002)
  • “Um Só Coração” (2004)
  • “Hoje É Dia de Maria” (2005)
  • “Hoje É Dia de Maria 2” (2005)
  • “Belíssima” (2005)
  • “Queridos Amigos” (2008)
  • “O Natal do Menino Imperador ” (2008)
  • “Som & Fúria” (2009)
  • “Passione” (2010)
  • “As Brasileiras” (2012)
  • “Guerra dos Sexos” (2012) – remake
  • “Doce de Mãe” (2012)
  • “Saramandaia” (2013)
  • “Doce de Mãe” (2014)
  • “Mister Brau” (2016–18)      
  • “Nelson: Por Ele Mesmo” (2017)               
  • O Outro Lado do Paraíso (2017)                 
  • Tá no Ar: A TV na TV (2019)          
  • A Dona do Pedaço (2019)    
  • Globo Repórter – Especial: “Fernanda Montenegro 90 Anos” (2019)

Cinema

Fernanda em Auto da Compadecida
  • “A Falecida” (1965)
  • “Em Família” (1970)
  • “Pecado Mortal ” (1970)
  • “Minha Namorada” (1970)
  • “A Vida de Jesus Cristo” (1971)
  • “Marília e Marina” (1976)
  • “Tudo Bem” (1978)
  • “Eles Não Usam Black-Tie” (1981)
  • “A Hora da Estrela” (1985)
  • “Trancado por Dentro” (1986)
  • “Fogo e Paixão” (1988)
  • “Veja Esta Canção” (1994)
  • “O Que É Isso, Companheiro?” (1997)
  • “Central do Brasil” (1998)
  • “Traição” (1998)
  • “Gêmeas” (1999)
  • “O Auto da Compadecida” (2000)
  • “O Outro Lado da Rua” (2004)
  • “Olga” (2004)
  • “Redentor” (2004)
  • “Nem Que a Vaca Tussa” (2004)
  • “Casa de Areia” (2005)
  • “Love in the Time of Cholera” (2007)
  • “As Aventuras de Agamenon, o Repórter” (2012)
  • “A Dama do Estácio” (2012)
  • “O Tempo e o Vento” (2013)
  • “Boa Sorte” (2013)
  • “A Igreja do Diabo” (2013)
  • “A Primeira Missa” (2013)
  • “Rio, Eu Te Amo” (2014)
  • “Infância” (2014)
  • “Boa Sorte” (2014)
  • “Silêncio No Estúdio” (2016)
  • “Todos os Paulos do Mundo” (2017)
  • “Corredor Polonês (2018)
  • “Piedade Carminha”(2018)
  • “O Juízo”(2019)
  • “Dona Vitória” (2019)
  • “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019)

Referências

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