Afinal, Zumbi Teve Escravos?

Para responder vamos as fontes disponíveis e interpretações. Antes é preciso lembrar:


1. Não foi encontrado até o momento nenhuma fonte produzida pelos palmarinos, Zumbi ou Ganga-Zumba;


2. As fontes que dispomos vem das fontes oficiais portuguesas, isto é, fontes repressivas;


3. As fontes não cobrem toda a região de Palmares temporalmente. Existem períodos que a documentação é mais extensa do que outras. Portanto é necessário cuidado com a generalização;


4. O conjunto de fontes é relativamente pequenas.


Vamos ver alguns deles:


A. Diário de viagem de João Blaer de 1645:


O capitão holandês João Blaer é a primeira fonte sobre a questão. Tem aproximadamente 10 páginas e boa parte do diário é tomada por descrições geográficas. Não cita nenhum tipo de escravidão. O trecho mais aproximado é esse:

“[…] seu rei os governava com severa justiça, não permitindo feiticeiros entre a sua gente e, quando alguns negros fugiam, mandava-lhes crioulos no encalço e, uma vez pegados, eram mortos, de sorte que entre eles reinava o temor, principalmente nos negros de Angola”;


B. RELAÇÃO DAS GUERRAS FEITAS AOS PALMARES DE PERNAMBUCO NO TEMPO DO GOVERNADOR D. PEDRO DE ALMEIDA, DE 1675 A 1678


O documento é bem denso com 22 páginas e descreve toda campanha militar contra Palmares entre 1675 e 1678. Zumbi é citado uma única vez:

Nestas esperas alcançou por notícias o sargento-mor que se tinham passado os negros 25 léguas além dos Palmares, entre as fragosidades de uns carreiros tão espinhosos e bravos que pareciam incontrastáveis a toda resolução; porém não os patrocinou ainda a aspereza, porque, assaltados dos nossos, ficaram muitos mortos e os mais fugiram; aqui se feriu com uma bala o general das armas, que se chamava Zambi, que quer dizer deus da guerra, negro de singular valor, grande ânimo e constância rara. Este é o espectador dos mais, porque a sua indústria, juízo e fortaleza aos nossos serve de embaraço, aos seus de exemplo. Ficou vivo, porém aleijado de uma perna.


C. Relação verdadeira da guerra que se fez aos negros levantados do Palmar, governando estas capitanias de Pernambuco o senhor governador e capitão-geral Caetano de Melo de Castro, no ano de 1694, da feliz vitória que contra o dito inimigo se alcançou.


Outro documento bastante extenso com cerca de 25 páginas e com muitos relatos militares sobre as incursões contra Palmares. Zumbi parece em três excertos:

Estando assim, dispondo-se para a marcha, chegou um aviso do mestre-de-campo, Domingos Jorge Velho, ao dito senhor, em como se achava situado junto ao outeiro do Barriga, aonde se achava o negro Zumbi, cabeça de todos os do Palmar fortificado com todos os negros e famílias dentro da dita cerca. E mandou o Zumbi retirar uma tropa que tinha mandado à ordem de um negro seu valente e grão-corsário, que chamavam o Camuanga, a quem tinha ordenado tocasse arma ao paulista por um lado, para que, tanto que o acudissem, lhe dar ele pelo outro com todo o grosso da sua gente. E ganhando eles o boqueirão, por onde começavam a sair os ditos negros, unidos já com 8 soldados, que naquele posto estavam, os carregaram por estilo, que não tiveram outro remédio, senão começarem-se a lançar pelo rochedo e despenhadeiro abaixo. Sendo o seu principal, chamado Zumbi, o que a isso os incitou por se ver já ferido. E largou um filho, que às costas trazia, e sete concubinas, pegadas todas umas nas cintas das outras. E era ele o que as vinha guiando, pegada uma também na sua cinta, que logo ali se desmanchou toda esta carruagem.


D. Bando do Sargento-mor oferecendo vantagens à obediência do capitão Zumbi dos Palmares –1680Documento conhecido oferecendo rendição a Zumbi dos Palmares depois da morte de Ganga Zumba.

Na proposta Zumbi é citado duas vezes:


Por me ordenar o senhor Aires de Souza e Castro, governador destas capitanias, faço saber a toda pessoa, de qualquer qualidade, de que [se] por qualquer maneira possa noticiar ao capitão Zumbi que o dito senhor governador novamente lhe perdoou, em nome de Sua Alteza, que Deus guarde, [de] todos os crimes que contra estes povos tem cometido, de modo que se restrinja à obediência de nossas armas e se una a seu tio Ganazona para gozar da mesma liberdade que este goza, juntamente com sua família, por ter sido o único homem que guardou sua palavra.Por todas essas razões, deliberou o senhor governador que o capitão Zumbi se contenha tal qual seu tio ficando, por isso, com toda sua família liberta.

E. Do rei de Portugal ao capitão Zumbi dos Palmares (26/02/1685):


Suposta segunda tentativa de paz com o Zumbi pela coroa. O documento diferente dos outros nunca foi encontrado pelos pesquisadores nos arquivos brasileiros e portugueses:

Eu El-Rei faço saber a vós Capitão Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado assim contra minha Real Fazenda como contra os povos da Capitania de Pernambuco, e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. Convido-vos a assistir em qualquer instância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus fiéis e leais súditos, sob minha real proteção;


F. Carta do Governador de Pernambuco Caetano de Melo e Castro informando ter conseguido a morte de Zumbi, a qual descreve abaixo. Pernambuco, 14 de Março de 1696.


Outro documento bastante conhecido relatando a morte de Zumbi. Segue os trechos:

Senhor, dando-se cumprimento ao que Vossa Majestade tem permitido, segue na presente ocasião um Pataxó para a Ilha da Madeira e, considerando que naquele porto pode ter um navio que com maior brevidade chegue à Corte, pareceu-me importante não abreviar à Vossa Majestade a notícia de termos conseguido a morte de Zumbi. Um mulato de sua confiança descobriu que os moradores do Rio de São Francisco o aprisionaram e remetendo-se a mim, disse ter encontrado com uma das tropas daqueles distritos de diques, que compreendeu ser dos Paulistas, que ia por cabeça o capitão André Furtado de Mendonça. Temendo o dito mulato ser punido por seus graves crimes, ofereceu entregar o traidor (Zumbi) que estava em seus braços, em meu nome, e aceitou a oferta, cumprindo com a palavra. Foi enviada para mim a cabeça do Zumbi, ao qual determinei que se pusesse em um pau no lugar mais público desta praça, afim de satisfazer os ofendidos, aos queixosos, bem como atemorizar aos negros, que julgavam, supersticiosamente, este como imortal. Pelo que se entende que nesta empreitada se acabou totalmente com os Palmares; assim, a frota veio para salvar ao capitão, depois de o recolher, passou a Bahia.


G. CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares. 2ª Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958. p.59.

Um dos principais autores e referência quase que basilar para os pesquisadores. O autor não aponta de onde vem a sua interpretação, mas aparentemente é ancorado no diário de João Blaer (1645):

Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à fôrça das vilas vizinhas continuavam escravos. Entretanto, tinham uma oportunidade de alcançar a alforria: bastava-lhes levar, para os mocambos dos Palmares, algum negro cativo.

H. FREITAS, Mario Martins de. Reino negro de Palmares. Rio de Janeiro: CEN, 1954, p. 284.

Livro encomendado pela editora do exército e bem belicista. A interpretação do autor é bem livre das poucas fontes sobre Zumbi:

Foi criada a justiça (em Palmares), com um ministro, e tribunais julgadores em todas as cidades, e ninguém era morto impunemente antes de ser julgado. Havia pena de morte para os desertores secundários, e pena de escravidão para os primários; a mesma pena de morte era aplicada àqueles que atentassem contra a moral social e o defloramento;


I. NARLOCH, Leandro; FRAGA, Gilmar. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. 1ª ed. São Paulo: Leya, 2009. p. 73.


Interpretação de Leandro Narloch ancorado em trechos das fontes A e B e alguns poucos autores como o Edison Carneiro já citado:

Zumbi, o maior herói negro do Brasil, o homem em cuja data de morte se comemora em muitas cidades do país o Dia da Consciência Negra,mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhas sem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo.Essa informação parece ofender algumas pessoas hoje em dia, aponto de preferirem omiti-la ou censurá-la, mas na verdade trata-se de um dado óbvio. É claro que Zumbi tinha escravos.


Existem mais alguns documentos citando rapidamente Zumbi falando de sua morte apenas.


Eles podem ser consultados em arquivos brasileiros portugueses e brasileiros.


Existe outros autores com suas análises que não caberia aqui pelo tamanho já grande do post: Flávio Gomes dos Santos, Clóvis Moura, Ivan Alves filho, etc.

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