Revolução Federalista 1893-1894 em Joinville PELOS OLHOS DE FÉLIX HEINZELMANN

O crédito do achado cabe a historiadora Raquel S. Thiago que diz o seguinte sobre o documento:

por Raquel S. Thiago

A Revolução Federalista tem suas origens no impasse criado pela mudança do regime monárquico para o republicano. O Partido Liberal, que estava no poder nos últimos anos da monarquia era aos poucos enfraquecido pela propaganda republicana que com seu ainda nascente Partido fez a República. Os dois partidos que se revezavam no comando do império eram o Conservador e o Liberal. O Republicano ainda era muito frágil, mas que se deparou repentinamente com o exercício do poder uma vez proclamada a República.

Resumindo, então, poderíamos dizer que a Revolução Federalista representou a revolta dos liberais, que não aceitavam os republicanos no poder. A revolta começou no Rio Grande do Sul, onde polarizavam-se as forças dos chefes políticos, de um lado, o liberal-federalista Gaspar Silveira Martins, e do outro o Governador do Rio Grande do Sul, o republicano histórico Júlio de Castilhos.

Por outro lado a Marinha, corporação da elite, não aceitava o papel mais ou menos secundário a que fora reduzida com o advento da República. Em seis de setembro de 1893, sob a liderança de Custódio de Mello dava-se a revolta Armada com a intenção de derrubar Floriano.Deste modo, o Governo Central teve contra si dois movimentos que , conjugados, exigiriam muito esforço para a consolidação da República.

Assim como no Rio Grande do Sul havia os descontentes com a perda de poder, em Santa Catarina os liberais fundaram o seu partido de oposição, o Partido Federalista, que congregou os políticos do Partido Liberal alijados do poder .Em 1893 os federalistas catarinenses detinham o governo do Estado e solidarizaram-se com seus vizinhos sulinos , resultando que Florianópolis acabou por tornar-se a sede do Governo Provisório dos Federalistas[1](instalado em 14/10/93).

Joinville, então, tornou-se um importante abrigo para as tropas federalistas gaúchas que se dirigiram para o norte, a fim de depor Floriano. Abdon Baptista, que era prefeito da cidade, pertencia ao Partido Federalista , o que abriu as portas para as tropas do Rio Grande do Sul, gerando um período de intensa insegurança para seus habitantes.

Joinville, nesta época,era uma jovem cidade, cuja maioria da população constituía-se de teuto-brasileiros que estiveram bastante presentes neste episódio.

Em 1893, quando estourou a Revolução Federalista, o quadro sócio-político e cultural joinvilense apresentava-se com o seujornal o “Kolonie-Zeitung”, a Escola Alemã, diversas Associações Culturais, inclusive a Sociedade Ginástica, além do Corpo de Bombeiros, fundado um ano antes e a Sociedade dos Atiradores. Todos estes elementos sócio-culturaisda cultura germânica representavam, também, elementos de lazer e auto-defesa. Afinal, não podemos desprezar a insegurança experimentada pelo estrangeiro em terra estranha. Pois bem, este era o quadro sócio-cultural e político joinvilense quando a cidade foi invadida pelas tropas revoltosas de um Juca Tigre, de um Gumercindo Saraiva, gente do sul, dos pampas de aparências e culturas totalmente diferentes dos nossos teuto-brasileiros.

A presença das tropas federalistas do sul trouxe a Joinville dias de apreensão, e ao mesmo tempo uma oportunidade de auto-afirmação para os teuto-brasileiros. O Corpo de Bombeiros, fundado em 1892, um ano antes, portanto, pôs à prova sua organização e a disciplina de seus homens, quando foi solicitado pelo Prefeito Abdon Baptista. Igualmente a Sociedade Ginástica e a dos Atiradores puderam testar sua capacidade de atuação em circunstâncias realmente delicadas. O bombeiro Alexandre Döhler, que deixou interessante relato deste período diz, que ao chamado de Abdon Baptista, para garantirem a segurança da cidade, juntaram-se “em menos de 10 minutos cerca de 40 bombeiros uniformizados”.

A História nos conta da violência que caracterizou a Revolução Federalista. Em Santa Catarina e Paraná esta violência aparentemente foi exercida apenas pelos Federalistas ou Maragatos, como eram chamados. Mas sabe-se que as tropas republicanas riograndenses não deixaram por menos e atrocidades foram cometidas por ambos os lados nesta Revolução da Degola, como ficou conhecida.

É de se registrar, também, o impacto causado na vida social da colônia. A presença de revolucionários e legalistas em Joinville semeou a discórdia e dividiu famílias, alterando as relações pessoais e a antiga tolerância entre adversários políticos. Desta situação, resultou séria dissidência num dos clubes da cidade, o União Joinvilense, com a retirada de vários sócios republicanos que fundaram o Clube Republicano, ficando o Clube União Joinvilense para os federalistas, os dois clubes congregando, cada qual, sua facção política.

É preciso registrar a posição dos joinvilense diante daquela realidade. Joinville , mais por força das circunstâncias do que pelo engajamento apresentou-se aos revoltosos como um porto seguro –já que seu Prefeito Abdon Batista era federalista. No entanto, em 1893, o teuto-brasileiro ainda não se sentia um cidadão brasileiro engajado nas questões nacionais daí julgar que não tinha nada a ver com esta guerra de poder, que foi a Revolução Federalista.Em São Bento não foi diferente, já que a população decidira ficar neutra e só pegar em armas se fossem“obrigados por desertores vagabundos que se sentem ameaçados e fazem guerra por conta própria segundo um artigo publicado no Kolonie Zeitung e no Volkstaadt.[2]”Por outro lado, o teuto-brasileiro, por sua formação européia trazia consigo forte propensão ao Regime Republicano, haja vista o fato da cidade ter sido forte reduto da campanha republicana no final do Império.

A maneira sensata com que as lideranças locais lidaram com tal circunstância, merecem aqui um registro à medida que se percebe por um lado o medo e o respeito pelo prefeito Abdon Batista (não esqueçamos que ainda sentiam a insegurança de serem estrangeiros) e, por outro, o zelo por suas propriedades, conquistadas com trabalho, trabalho e trabalho, obedecendo à ética protestante predominante na época, além das gritantes diferenças culturais .O comandante dos Bombeiros Voluntários de Joinville, Felix Heinzelmann ao escrever uma carta para sua irmã, da Alemanha, não sabia que ao fazê-lo estava produzindo um dos mais importantes documentos históricos para o estudo da Revolução Federalista em Joinville.

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Joinville, Felix Heinzelmann ao escrever uma carta para sua irmã, da Alemanha, não sabia que ao fazê-lo estava produzindo um dos mais importantes documentos históricos para o estudo da Revolução Federalista em Joinville.

Tradução da carta escrita por FELIX HEINZEILMANN para sua irmã (viúva) Marta Jaehhe em Stralsun, Alemanha. (tradutor desconhecido)

Joinville, 13 de junho de 1894

Meus caros:

Somente hoje é possível escrever-lhes uma carta , já que a grande revolução tinha interrompido totalmente qualquer contato com o exterior durante meses, e que somente agora, lentamente está se restabelecendo, quando estamos livres da tirania do “libertadores”. Dificilmente uma revolução foi encenada tão frivolamente como esta que agora está praticamente derrotada. Como pretexto serviram-se da intervenção do VICE – PRESIDENTE PEIXOTO no Rio grande, onde as forças federais se colocaram no lado do governo estabelecido e as tropas federais e as tropas federais combatiam as forças do partido revoltoso.

No fundo o motivo, porém, não foi nada mais do que a mais baixa ambição; o Partido Federalista queria desalojar o Partido Republicano do governo para conquistar para si a presidência que seria ocupada por eleição neste ano. Para conseguir isto, o Vice – Presidente em exercício teria que entregar o cargo para que o novo Vice – Presidente , o Presidente do Senado, Prudente de Morais assumisse, o qual, pela Constituição seria inelegível para Presidente da República. Prudente de Morais, porém, tinha as maiores chances de ser eleito como um homem respeitado mesmo pelos adversários e uma pessoa altamente capaz. Era ele o candidato dos Republicanos e teria que ser inviabilizado o seu nome.

Pensava-se, decerto, que tudo fosse correr como nas outras revoluçõezinhas por aí, e que seria preciso só um pouco de agitação e ameaças para que Peixoto saísse fugindo pelas portas dos fundos do palácio e renunciasse como o fizera o Presidente Fonseca, tudo para evitar derramamento de sangue pela população. Enganaram-se, porém, quanto a Peixoto, ele não fugiu mas permaneceu firme no seu posto. Aceitou o desafio e a luta,, a qual os seus oponentes , se tivessem adivinhado nem tivessem iniciado e com esforço colossal combateu os revoltosos. Por último alguns dos líderes revolucionários  tentaram ainda desfraldar a bandeira da monarquia para ver se assim conseguiriam auxílio do exterior, mas isso resultou apenas em discórdia no próprio meio, da mesma forma que a ideia da separação dos três estados sulinos do resto do país não vingou.

O Partido Federalista está definitivamente derrotado e quase destruído e Prudente de Morais foi eleito Presidente – nos três estados sulinos, Rio Grande, Santa Catarina e Paraná por causa da revolução naturalmente não houve eleições – e assumirá no dia 15 de novembro. É assim o histórico político que se deve conhecer para procurar entender  a terrível revolução que, pelo menos nesta parte do Brasil, representa um atraso de ao menos 20 anos no desenvolvimento e que muito dificilmente será recuperado.

Não desejo, porém, aprofundar-me em dissertações políticas, mas apenas dar-lhes um quadro dos acontecimentos aqui em Joinville e na colônia Dona Francisca durante a revolução pois Joinville serviu por algum tempo como base de operações dos revolucionários e por alguns meses estava ocupada pelos mesmos. Durante esses  tempos difíceis os bombeiros voluntários, organizados por causa de dois incêndios quase seguidos, zelaram pela calma e segurança da população e propriedade. Os bombeiros voluntários, militarmente organizados, de capacete preto, blusa azul e cinto branco largo, no total de cerca de sessenta pessoas, os atiradores com chapéu e túnica cinzentos, cerca de 25 pessoas, e mais 20 cidadãos voluntários, compunham a guarnição de defesa da nossa cidadezinha, tudo sob o comando do Comandante dos Bombeiros e organizadamente cumpriam horários de guarda de 1º de novembro até 16 de janeiro, uma ocupação deveras desgastante.

Foram nesse período efetuadas, sem contar as inúmeras formaturas quando da chegada ou partida dos corpos de tropa, patrulhas extraordinárias, etc., somente pelos bombeiros; A Sociedade de Atiradores efetuou 198 e os voluntários deram 120 serviços de guarda. Depois de 16 de janeiro os bombeiros tiveram que entrar em atividade mais duas vezes, uma vez só por poucos dias e mais recentemente outros 14 dias, quando se queria impedir a entrada de tão indesejadas visitas.

Agora, aos fatos: Em setembro de repente ocorreu uma total paralização do contato com a capital federal do Rio de Janeiro. Não mais vinham jornais de fora e somente terríveis boatos circulavam, de que no Rio a Armada tinha se revoltado sob o comando do Almirante Custódio de Mello e que alguns navios, entre eles o melhor e mais novo encouraçado “República” tinham escapado do porto do Rio e estariam patrulhando a costa. Ninguém por aqui augurava algo de mal, quanto mais pensar que nossa Joinville pudesse ser atingida. De repente, em 22 de setembro, como um raio em dia claro, chegou a notícia de que o encouraçado revoltoso “República “ teria escalado o vizinho porto de São Francisco Dio Sul, tendo ocupado a alfândega , o telégrafo e o nosso vaporzinho fluvial.

Ainda que (?) mesmo um destacamento para recrutar cidadãos para as tropas revoltosas. A cidade foi tomada de um pânico geral e diversos jovens fugiram. Logo, porém, a calma voltou e ficou decidido aguardar os acontecimentos, mas assim mesmo opor-se a qualquer recrutamento. Os bombeiros voluntários foram convocados e foram postas várias sentinelas ao longo do rio para dar o alerta tão logo aparecesse qualquer embarcação. Às 11 horas da noite soou o alarma e as sentinelas recuaram e vieram juntar-se ao grosso dos defensores na praça do porto onde uma grande massa popular havia acorrido. Não levou muito tempo e apareceu o nosso vaporzinho com uma barcaça a reboque, trazendo cerca de 50 soldados da marinha e 2 oficiais . Na praça do porto as embarcações pararam. Quando os oficiais viram o povo e os bombeiros e atiradores alinhados, fizeram os soldados carregar seus fuzis Mauser, e vieram para a terra, onde foram recebidos pelo Presidente da Câmara Municipal, o Dr. Abdon Baptistas, para parlamentar com eles.

Inicialmente fizeram exigências descabidas e ameaçaram, no caso de não atendimento, voltar com 500 homens, ao que lhes foi retrucado: “Então serão recebidos por 1.000 homens”, muito sério e energicamente quando , impressionados, conformaram-se e se limitaram a ocupar e danificar o telégrafo. Foi então, que o Dr. Abdon, simpatizante e líder federalista , iniciou seu jogo duplo o que mais tarde teve como consequência que toda a malta revoltosa viesse aqui, negociando secretamente com os oficiais sem conhecimento à Câmara Municipal. Um dos oficiais com alguns praças foi então ao telégrafo e retirou os aparelhos levando-os, e todos retornaram a São Francisco. Já no dia seguinte voltou um oficial com 12 praças para cortas os fios do telégrafo, tanto para o norte como para o sul, tendo pedido, ainda, que o telegrafista Inácio Bastos lhes entregasse cópias das últimas mensagens transmitidas, ameaçando-o de prisão imediata, pois o mesmo se recusara a fazê-lo. Não receberam, porém o telegrama, nem deram voz de Prisão ao Bastos, que pode escapar para um lugar seguro. Por alguns dias tudo ficou calmo; o “República” deixou São Francisco, permanecendo o cargueiro armado “Pallas” que depois zarpou para Itaja hy, mas encalhou na barra.

O “República” tomou curso a Desterro, capital do estado de Santa Catarina que era defendida por apenas 200 soldados, comandados pelo Coronel Martins. A cidade foi tomada com facilidade , ainda mais que o governo do Estado era francamente simpatizante dos revolucionários, aderindo aberta e prontamente. A guarnição militar, com exceção do comandante e poucos oficiais, também aderiu. Foi então, a 14 de outubro, formado em Desterro um governo provisório da Federação sob a presidência do comandante do “República”, comandante de mar e guerra Lorena, que imediatamente decretou a mobilização geral da Guarda Nacional do Estado. Enquanto isso, chegou na colônia, uma tropa de cavalaria da União, vindo de Curytiba (norte) via São Bento, isto para prevenir nova invasão, o que absolutamente não agradou ao Dr. Abdon que a todo custo queria que aderíssemos aos seus aliados , os federalistas. O Dr. Abdon foi ao encontro da tropa e argumentou que tudo estava tranquilo em Joinville e que de forma alguma havia risco de nova invasão, convencendo o comando a voltar sem vir ao centro, quando já estavam a umas três horas de marcha da cidade. Mal a cavalaria tinha se afastado apareceram 70 soldados federalistas, do 25º Batalhão de  Infantaria  que tinha aderido aos revoltosos, trazendo até uma metralhadora, enviando um pequeno destacamento como posto avançado a São Bento e se aquartelando no galpão destinados aos emigrantes no centro de Joinville. Foi restabelecido o telégrafo.

A mobilização decretada pelo Governo Provisório porque não se conseguia relações  dos homens em idade militar nem houve quem quisesse assumir a direção deste trabalho. Somente foi possível arregimentar oito ociosos sob a denominação de “Guarda Cívica”, os quais percebiam dois mil reis por dia. Eis que chega a notícia da Estrada do Sul, região que limitava com a colônia Blumenau, de que 300 blumenauenses armados estariam avançando. Tal notícia deixou a guarnição em verdadeiro pânico. Os soldados abandonaram o galpão dos imigrantes e se agruparam junto ao telégrafo. As caldeiras dos dois vapores foram aquecidas mesmo sem maré suficiente para deixar o portinho para deixar o portinho para a fuga. Os blumenauenses porém não apareceram; o recado tinha sido dado ao sentinela militar na Estrada do Sul por um homem que não mais pode ser localizado. Os dias foram passando sob pressão constante até o fim de outubro. A soldadesca passava as horas nos botecos onde bebiam uma quantidade impressionante de cachaça. Não houve transgressões mais graves, como geralmente acontece em revoluções.

As comunicações com outros centros pararam totalmente porque todos os vapores que conduziam malas de correio estavam nas mãos dos revolucionários e tinham sido transformados em navios de guerra. Não se recebia cartas, não adiantava escrevê-las porque não havia como despachá-las. Era mesmo arriscado escrever cartas durante todo o tempo da revolução, mesmo que houvesse oportunidade de despachá-las, pois os “libertadores” abriam toda a correspondência e qualquer opinião, mesmo que a mais inocente possível, ou manifestação, resultavam, na melhor das hipóteses, na destruição da carta, podendo chegar até duras penas por “conspiração contra a gloriosa revolução”, com detenção imediata. Era essa a proteção constitucional prometida. Parara todo o comércio e transportes e os preços dos artigos de primeira necessidade, os alimentos, praticamente dobraram.

No dia 31 de outubro veio a notícia que no dia seguinte chegaria um general com uma divisão do Exército Revolucionário. No dia 1º de novembro, de fato, chegou o General Piragibe pouco depois do meio dia, um coronel que tinha escapado do Rio com vários outros oficiais do exército que se tinham voltado para o lado dos revolucionários , mas não com 900 soldados como fora anunciado, mas com apenas 230 soldados e quatro canhões. Em sua companhia estava também um coronel da engenharia, o qual já tinha sido exilado para o Amazonas bem como diversos senhores do Desterro. Todos portavam faixas brancas nos seus chapéus com a inscrição “Tudo pela Liberdade” .

A tropa compunha-se de soldados do 7º e do 26º Batalhão, soldados da polícia e 40 marinheiros do vapor “Pallas”, encalhado em Itajahy, todos bem equipados com fuzis Mauser e Mannlicher. No porto, onde já estava formada a guarnição anteriormente chegado e com presença popular, aconteceu a recepção solene. O Dr. Abdon saudou o general com uma fala e o general respondeu que tinha vindo “para a proteção de Joinville”, ao que se seguiram vivas à gloriosa revolução, ao valente general, ao vitorioso exército libertado, etc. Os vivas estavam sendo berrados por uns pouco correligionários enquanto o povo permanecia em total silêncio. Mal o general tinha se alojado no seu hotel, já fez à sua presença o comandante dos bombeiros , ordenando-lhe que os Bombeiros Voluntários e os Atiradores deviam juntar-se na sua tropa e acompanhá-lo na campanha. No caso de uma recusa seria proclamado imediatamente um recrutamento compulsório . Ao comandante dos bombeiros era oferecida a patente de major no caso de uma adesão voluntária. O comandante retrucou que teria que submeter a proposta aos bombeiros e que o general receberia, então, a decisão. Pelo general foi dado uma hora para decidirem.

A reunião dos joinvilenses foi no pátio da igreja luterana, comparecendo apenas poucos bombeiros e alguns atiradores. A situação era extremamente crítica; alguns jovens já tinham preferido fugir para escapar do recrutamento. Havia poucas armas, em quantidade totalmente insuficiente, de modo algum suficientes para tentar uma resistência séria. Bem que já tinham sido enviados mensageiros a cavalo para todas as estradas da colônia, mas nenhum havia retornado e nenhuma informação sobre a mobilização havia chegado.

Assim mesmo foi decidido pelo grupo, composto apenas de 30 pessoas e em unanimidade, que a participação na campanha seria negada, aconteça o que acontecer. Foram porta vozes da decisão o comandante dos bombeiros e o presidente da sociedade de atiradores ao que o general pronunciou diversas ameaças despachando mesmo cavalarianos armados de lanças para começar a recolher cavalos inicialmente. Foi aí que, providencialmente, chegaram as primeiras notícias de adesões por parte dos colonos que estavam prontos para ação imediata. Todas as estradas tinham aderido e já estavam em marcha para a cidade, todos armados. Com isto o general não tinha contado e mudou de tom, desistindo totalmente do recrutamento e confiando a guarda da cidade aos bombeiros e atiradores, para policiamento e segurança, desde que fosse pedido aos colonos que não viessem à cidade, o que lhe foi prometido.

Imediatamente os bombeiros organizaram o serviço de vigilância, destacando postos em todas as estradas para as colônias, com o fito de deter os colonos e explicar-lhes a nova situação.

Calculou-se que a força dos colonos, dos quais alguns só chegaram na outra manhã, ultrapassava 1500. Alguns voltaram imediatamente, a maioria, porém, aguardou o outro dia mesmo fora da cidade, quando deixaram as armas para trás e foram ao centro onde foram recepcionados pela população citadina com comes e bebes. O general Piragibe apressou-se em deixar a cidade com seu exército de cerca de 300 homens, marchando em direção ao planalto e já pelas 10 horas nenhum soldado tinha permanecido. Com ele foi a “Guarda Cívica” reduzida a cinco membros. A caminho encontrou diversos grupos de colonos que ficavam à beira da estrada para deixar passar o exército.

Os jovens que tinham fugido com medo do recrutamento foram na maioria apanhados pelos colonos e tiveram que voltar a Joinville sob ameaça de uma surra. Piragibe marchou pela Estrada da Serra em direção ao planalto e de muitos colonos requisitou carro e cavalos, ou simplesmente os levava sem dar satisfação.

Um súdito alemão, a quem tinham tirado carro e cavalos, recebeu indenização de Rs 600$000de de reclamação do cônsul alemão, Sr. Metz. Geralmente, porém, os chefes revolucionários forneciam por artigos ou produtos tomados. Estes Bonus eram sobre o Tesouro Nacional e pagáveis depois da vitória da revolução. Tempos depois nem isso era mais considerado necessário, tomava-se o que se queria e o que havia. Como São Bento ainda estava ocupada por tropas do governo sob o general Argollo que também dominava a região de Tijuca, Piragibe entrincheirou-se na serra a uns 50 km. De Joinville. Quando Argollo, com grande pesar dos colonos se retirou de São Bento e acampou em Rio Negro,no outro lado do rio do mesmo nome, Piragibe ocupou São Bento.

Durante a entrada naquela colônia surgiu um conflito com um grupo de colonos e um colono totalmente neutro e sem envolvimento foi morto a tiro. Os mais destacados partidários do governo fugiram junto com suas famílias. Da casa de um deles, o Dr.Wolf, Piragibe recolheu tudo o que havia de valioso, e junto também os medicamentos da farmácia. A mobília e também o prelo de uma pequena tipografia foram destruídos . Com um relógio de console apresado na casa do posto da estrada da Serra o nobre general pagou despesas de restaurante e uma conta de sapataria mandou enviar a um negociante de Joinville para que o mesmo a liquidasse.

De São Bento Piragibe, com sua força aumentada de 150 homens da Guarda Nacional formada localmente pelo Presidente da Câmara federalista e composta de nativos e poloneses, se deslocou até Rio Negro, onde inesperadamente foi recebido com balas de canhão. Quando, porém, na manhã seguinte quis continuar a luta, as tropas fieis ao governo tinham desaparecido e Piragibe pode ocupar a cidade e atravessar o rio, partindo então, reforçado por gaúchos , para tomar Lapa onde foi rechaçado com  perdas. Mais tarde, quando Lapa estava cercada pelos revolucionários , conseguiu ocupar a capital do Paraná, Curitiba, sem luta , pois o Governador do Parana, Machado e o comandante da região, Pago, enganados por telegramas falsos, tinham se retirado para São Paulo a toda pressa.

Quando a revolução começou a desmantelar, Piragibe e outros pseudos-herois fugiram do país e se asilaram em Montevidéu. General Pago foi submetido à corte marcial e condenado a sete anos de prisão, degradação e perda de direitos civis. Depois desta digressão voltemos a Joinville. Os dias de 4 a 23 de novembro se passaram com preocupações quanto ao futuro. No dia 23 apareceram as primeiras chamadas tropas irregulares , uns 300 homens sob o comando do chefe de bando Juca Tigre ( José Castilhos, chamado tigre por sua crueldade ) . Estas tinham sido expulsas do  Rio Grande pelas tropas do governo e de Laguna tinham sido transportadas a São Francisco e daí a Joinville, em botes. Que aspecto deprimente oferecia essa gente; não pareciam gente civilizada mas antes selvagens. Uns 40 não podiam sair das embarcações por estarem totalmente nus, e primeiro tinham que ser providos de roupa antes de poderem desembarcar. Os outros, rasgados e maltrapilhos, um pedaço de pano envolvendo o tronco, formando uma espécie de bombacha.

O armamento consistia das mais diferentes espécies de lanças, até fisgas de três pontas havia. Facas, facões, espadas, pouquíssimos tinham espingardas. Imagino que assim se pareciam os croatas da Guerra dos Trinta Anos. No acompanhamento uma multidão de mulheres maltrapilhas, sujas, e seus filhos. E estes gaúchos do interior do Uruguai, pois a maioria falava espanhol, intitulavam-se “salvadores da pátria”, com o lema no chapéu “Pela Liberdade”, às vezes ainda adicionado “E por Deus”! Esta turba preta, morena e vermelha, de cujo semblante irradiava uma vontade assassina, mesmo ao nosso Presidente da Câmara intimidava e por sua proposta, a Câmara decidiu que a tropa deveria ser despejada o quanto antes ao planalto em carroças. Como, porém, havia notícias de outras levas de tal espécie, foi organizado um serviço regular de carroças de colonos, sendo que cada um deveria prestar transporte quando chegasse sua vez.

Os paladinos da liberdade acamparam para pernoite na praça do porto, onde acenderam várias fogueiras para assar a carne de gado que lhes foi fornecida, a qual foi devorada meio crua, sem sal nem tempero. A comida para eles cozida foi recusada. Na manhã seguinte umas 40 carroças estavam prontas e foram conduzidas para o campo pela estrada. Depois de troca de carros a animais foram até o km 51, onde existiam as fortificações de Piragybe, que ocuparam para mais tarde se unirem a ele. No caminho um acontecimento mostrou que com essa gente todo cuidado era pouco. Um dos guerrilheiros tinha apeado do carro e ficado numa venda a tomar cachaça e um capitão, irritado, foi até à venda e golpeou o infeliz com a espada, deixando-o jogado na estrada e o Inspetor de Quarteirão que queria atendê-lo, foi ameaçado de ter a mesma sorte, pois “cachorro que morre na estrada fica na estrada”. A maior parte desses renegados morreu no cerco da Lapa, quando o General Piragybe ordenou que tomassem as fortificações com lanças e a cavalo.

Seguiram-se mais alguns dias de tensão insuportável, por ter sido anunciada a chegada de todo o exército libertador riograndense sob o comando do General Gumercindo Saraiva. No dia 2 de dezembro apareceram 600 homens, sob o comando do irmão de Gumercindo, Aparício, logo de deslocando para o acampamento preparado no km 1 da Estrada da Serra. No dia seguinte chegaram mais 800 homens e à noite o próprio general acompanhado do general Paulino e alguns chefes do bando riograndense [, mais um filho e um sobrinho do próprio idealizador da revolução, Silveira Martins, o qual dava suas ordens de lugar seguro em uma hospedaria em Montevidéu. Os 800 homens foram conduzidos ao km 6 da Estrada da Serra depois de terem desfilado na cidade ao som de uma banda de música que tinham trazido de Lages.

O General foi recebido no porto pelos próceres federalistas e pelo Presidente da Câmara, Dr. Abdon Batista, que tinham também convocado os bombeiros e os atiradores. Dr. Abdon estava agora com o jogo ganho, pois tinha conseguido deixar Joinville totalmente em poder dos federalistas e assim futuramente galgar um degrau no futuro governo, para o quê contava não só com seus amigos patrícios, mas mesmo alguns alemães, com destaque para os redatores e colaboradores “der Volksstaat” (O Estado do Povo). Esta folha, inicialmente órgão do aqui fundado partido socialista, na forma de “Fortschristt” (Progresso), tornou-se verdadeira cloaca, pelas mais baixas denúncias e intimidações a pessoas favoráveis ao governo, malhando a população com chavões federalistas , o que conseguia, uma vez que o “Kolonie Zeitung” tinha sido emudecido.

A “gloriosa revolução” merecia todos os encômios e eram dados conhecer os mais estapafúrdios telegramas sobre as gloriosas vitórias do exército de libertação, a maioria forjados. Tais vitórias, porém estavam longe da “realidade”. O exército de Gumercindo bem como os bandos organizados pelo Governo Provisório sob o comando do General Geral Salgado tinham sido escorraçados do Rio Grande pelas tropas do governo central e tinham escapado para Santa Catarina. De Lages, Gumercindo fora desalojado pelo General Lima e Senador Machado, tendo sofrido grandes perdas em Matto Português  no Alto Itajahy após escapar de Passos das Canoas e recuado para o litoral passando por Blumenau. De Itajahy foi transportado para Joinville por navios dos revolucionários, após renhidas lutas perto da cidade de Itajahy em meados de novembro, razão pela qual deixaram aquele porto com toda pressa.Também as tropas do governo central tiveram que recuar por falta de munição.

A tropa sob o comando de Gumercindo, que chegou em 2 e 3 de dezembro, tinha praticamente o mesmo aspecto da do Juca Tigre, havia, porém, alguns elementos melhores no seu meio; gente que tinha perdido tudo e fora obrigada a acompanhar os revolucionários. O armamento era relativamente bom, alguns com armas de sistemas mais recentes. As vestimentas, caracterizadas pelas mencionadas bombachas, davam um aspecto fantástico ao conjunto. Não havia dois uniformes iguais e as expressões dos rostos poderiam servir de motivo para pitorescas pinturas de quadros. Naturalmente todos os chapéus estavam ornados de faixas “Tudo pela Liberdade”. Os libertadores acamparam para permanecer; foi estabelecido um terceiro acampamento no km 3 e outro nas proximidades do porto.

Todos os acampamentos fervilhavam de atividade. Aquelas figuras pitorescas ficavam deitadas nas barraquinhas, cercadas de mulheres e crianças desleixadas e sujas, difícil dizer quem seria mais sujo. Carne de gado era assada sobre pequenas fogueiras e o chimarrão não parava de circular. A ocupação principal dos soldados eram os jogos de azar e entre esses o preferido era jogado com um osso de vértebra de pescoço de boi. Se o osso caísse apoiado no lado chat, o lançador ganhava, se no lado abaulado, perdia. Não se jogava por menos de dez mil reis e centenas de mil reis mudavam de dono constantemente; nunca se perguntava donde o dinheiro provinha ou se estava manchado de sangue.

A disciplina praticada pelo general e diferentes superiores, cada um no seu bando, era severa e sangrenta. As penas impostas eram bárbaras e também os oficiais menos graduados estavam sujeitos às mesmas. Os infratores ou malfeitores eram amarrados sobre uma cruz ou sobre duas vigas e deixadas ao sol durante horas ou o dia todo e, em caso mais graves como revolta etc., era-lhes cortada a cabeça tal como se faz com o gado, degolados mas com requintes de crueldade para dar exemplo aos demais. Soube- se que diversos degolamentos teriam ocorrido aqui, mas tudo foi mantido muito em segredo. Foi um tempo penoso para os colonos. As carroças eram requisitadas seguidamente para missões as mais diversas, até para passeios de oficiais e soldados.

Sempre foi prometido um serviço posterior dos serviços prestados, mas de onde viriam os fundos para tal? Quem iria repor ou consertar os carros danificados e indenizá-los pelos cavalos estropiados ou mortos? O exército de libertação que estava aqui para defender a constituição naturalmente não se preocuparia com tal bagatela quando o que estava em jogo era a liberdade… O comportamento da população nestes tempos difíceis era exemplar , parecia que todos se tinham combinado a não fazer a menor demonstração de antipatia. Tal atitude teria tido as mais terríveis consequências: recrutamento forçado e saques, pois nossos hóspedes indesejados muito resmungavam que aqui não podiam saquear ou roubar. Afinal Joinville tinha-lhes sido prometida para saquear, e agora nada. O ódio fanático dos revolucionários aos “pica-paus”, assim eram chamados os partidários do governo legal, e por outro lado o mesmo ódio dos legais contra os “quero-quero” ou “ladrões de cavalo”, como eram designado os revolucionários, facilmente poderia ter se traduzido em baderna e assassinatos, mas o policiamento durante esse tempo foi exercido pelos bombeiros e atiradores com toda severidade e rigidez. Os soldados só podiam andar desarmados pela cidade e tinham que deixar qualquer arma na guarita antes de deixar o acampamento. Havia muitos punhais bonitos com punhos de prata e bainha também com enfeites prateados ( também as selas dos cavalos eram muito enfeitadas com prata, bem como os arreios e os estribos). Era proibido vender cachaça aos soldados e os botecos tinham que fechar às 8 horas da noite.

No dia 8 de dezembro foram despachados 300 soldados sob o comando de Aparício, para a Estrada do Sul, até a divisa da região blumenauense, para barrar a passagem das tropas governistas. Durante este tempo, Gumercindo envolveu-se em combate em Itajahy. Na região de Blumenau não foi possível chegar por causa do terreno pantanoso na floresta virgem, mas os habitantes de lá muito sofreram e tiveram grandes perdas tiveram em gado e cavalos. Foram também cometidos crimes horrendos. A um italiano que por inimigos fora denunciado como espião, foi furado o pescoço e passada uma corda, pela qual foi arrastado por um cavalo por um grande trecho, depois cortaram-lhe nariz e orelhas, mãos é pés, e por fim serraram-lhe o pescoço com ripas de bambu. Dois blumenauenses que foram apanhados no mato, foram torturados desumanamente e depois jogados na fogueira onde ficaram queimando lentamente. Tais atrocidades mais tarde se repetiram seguidamente no Paraná, atingindo gente inocente, soldados e oficiais aprisionados. Em Lapa, por exemplo, vitimara cerca de 200 e em Tijuca 300. E tais verdadeiras bestas queriam ser os portadores da liberdade.

Pelos feriados natalinos havia uns 200 soldados nos acampamentos, de maneira que pudemos celebrar o Natal em relativa paz. Até o culto natalino na bem iluminada igreja protestante pode ser celebrados porque além das patrulhas reforçadas dos bombeiros o comandante de acampamento, um major Ribas, pessoa culta e calma, tinha destacado uma guarda para evitar eventuais perturbações . Aqueles incultos e embrutecidos soldados com manifestação de espanto viram os pinheirinhos acesos e enfeitados, pelas janelas das casas e pareciam crianças na manifestação de sua alegria, garantindo que contariam em casa deste costume e jurando que o introduziriam também, uma vez de volta aos seus lares. Na noite de 27 de dezembro, no entanto, a cidade foi alertada pelo alarma dos bombeiros. Soldados que se opunham ao fechamento de um boteco numa das ruas perto do mercado haviam atirado contra a patrulha dos bombeiros. A rápida intervenção do major Ribas, que fora imediatamente avisado, evitou maiores e trágicas consequências. O causador dos tiros, um capitão, foi detido e amarrado, permanecendo ao sol por 12 horas no dia seguinte.

Pouco tempo depois, na rua Cachoeira, novamente uma patrulha foi alvo de tiros, só se salvando da morte atirando-se todos numa valeta profunda que havia no local . No dia 30 de dezembro a situação ficou ainda mais delicada na colônia. Apareceu aqui com Piragibe um Senador do Paraná, Dr. Dória. Estes cavalheiros demonstraram grande entusiasmo pela brilhante vitória (?) em Itajahy, onde da refrega. Conforme diziam Pinheiro Machado tinha escapado só com 5 homens. Dr. Dória fez uma empolgante oração para o povo, cujo ponto alto foi: Em 2 dias estaremos em Curitiba; em 8 dias em São Paulo e em 14 dias estaremos nas praias do Rio de Janeiro, tudo acompanhado por grande foguetório. Eis que aparece o comandante dos bombeiros com 6 bombeiros voluntários e proibiu os foguetes , porque isso poderia ser interpretado como sinal de pedido de socorro da cidade aos colonos. Houve grande revolta e inconformismo entre  a oficialidade, o próprio Piragibe vociferou e praguejou, mas pararam o foguetório.

O ano novo começou com a mesma preocupação quanto ao futuro, o que se sentia ao findar o ano velho. O jornal “Volksstaat” continuava a publicar as fantasiosas notícias sobre vitórias federalistas e desmantelamento de tropas governistas. De 5 a 7 de janeiro todas as tropas de Gumercindo foram evacuadas por carroças, sob o comando do coronel Laurentino e com isto tinha terminado a passagem de tropas por Joinville. O General Gumercindo fez uma proclamação ao povo joinvilense, na sua qualidade de comandante supremo , onde em palavras altissonantes assegurava o seu reconhecimento quando tivesse vencido.

Esse reconhecimento não tardou, mas de uma forma diferente do que se esperava. As carroças deveriam ir até o km 61 e aí seriam substituídas por outras de São Bento, para que as de Joinville pudessem retornar imediatamente. Tal não aconteceu, porém, e os colonos, carros e cavalos foram retidos por mais de duas semanas e ainda lhes foram tirados por volta de 100 dos melhores animais, dos quais, de fato, alguns foram devolvidos, mas em estado deplorável. A maior parte foi simplesmente vendida pelos soldados, a ponto de ficarem faltando cerca de 60. Afinal, Joinville ainda escapou relativamente barato, outros municípios foram muito mais atingidos, como São Bento, Rio Negro e São Francisco , em cujo porto a Guarda Nacional simplesmente ocupou navios para ir a Paranaguá que foi conquistada em 11 de janeiro, junto com tropas de Laurentino, e que, depois de bombardeio durante horas, mesmo sendo cidade aberta, rendeu-se em 13 de janeiro.

Muitos civis morreram e a guarnição militar foi presa, sendo também apresado muito material de guerra no porto daquela cidade. No planalto Gumercindo avançou sobre Tijuca, onde uns 600 homens, a maioria da Guarda Nacional, estavam entrincheirados e resistiram ao assédio de 4.000 federalistas por mais de oito dias e que se renderam por falta de víveres. Os que não conseguiram escapar tiveram que aderir aos federalistas, pois no caso de recusa eram executados por degolamento, o que de fato aconteceu a 80 soldados, entre os quais 7 oficiais.

De Tijuca, estiveram aqui em Joinville, de passagem, uns 60 carros de colonos com 129 feridos e doentes, acompanhados por 1 médico e 1 enfermeiro. A partir de então não se viu mais libertadores, salvo mensageiros e ordenanças. De Tijuca a tropa revolucionário dirigiu-se para Lapa, que foi defendida durante 29 dias por tropas do governo sob Carneiro. Este general, ferido mortalmente, deixou ordem de não aceitar nenhuma negociação, mas lutar até o último homem. Quando, porém, o segundo comandante também caiu e a munição acabou, a guarnição teve que se render. Aconteceu a mesma coisa como em Tijuca e, além disso, Aparício deu licença para saquearem durante 3 dias, quando aconteceram barbaridades indescritíveis.

Nesse meio tempo também a capital do estado do Paraná, Curityba , tinha se rendido e  o Dr.Dória tinha-se nomeado Presidente do Estado. Em Curityba foi lançado um empréstimo compulsório de trezentos contos de réis, além dos incontáveis casos de extorsão por oficiais e soldados. Estima-se que aqueles cavalheiros “libertaram” em Curityba mais de 1.000 contos de réis. Quando se dispunham a avançar mais para o norte, foram rechaçados e tiveram que recuar para abaixo da fronteira de São Paulo  pela pressão das tropas do governo. As estas alturas os valentes cavalheiros generais Gumercindo, Doria, Piragibe , Laurentino etc., “tiveram “ que viajar a Montevidéu em missão especial, para livrarem seus couros. Aparício, com toda a tropa remanescente, ainda uns 2.000 homens, em fuga desabalada confiscou todo o gado e cavalos que encontrou na região de Rio Negro.Esperemos que as tropas do governo sejam capazes de impedi-los de prosseguirem seu caminho através dos estados sulinos até  a  Argentina, seu destino final , e que derrotem definitivamente esta turba.

A esquadra nova que Floriano Peixoto adquiriu na América do Norte e na Alemanha, quando chegou no Rio de Janeiro, modificou totalmente a situação. Na cidade de Rio Grande, as forças revolucionárias sob o comando de Salgado foram desbaratadas e dispersadas. Os navios maltratados e desleixados dos revolucionários refugiaram-se em Buenos Aires. Em 13 de abril a esquadra do governo chegou a Desterro. O encouraçado “Aquidaban” , que defendia o porto, foi destruído por um torpedo, afundando, e a cidade rendeu-se sem resistência. O Governo Provisório e seus líderes fugiram em todas as direções. Um novo governador foi empossado e o restabelecimento da ordem anterior foi providenciado.

Todas as autoridades revolucionárias foram destituídas e muitos foram detidos. Em Desterro foi instituída uma corte marcial para julgar os mais envolvidos. Daqui foram transferidos cinco, entre eles o comandante do “Aquidaban” que estava se refugiando. Como havia perspectivas de mais uma visita dos federalistas em maio, que viriam saquear um pouquinho e desforrar-se de alguns opositores daqui, os bombeiros voluntários novamente tiveram que entrarem em ação com suas patrulhas de vigilância, até que a cidade recebeu uma guarnição de 100 homens, dos quais 50 foram destacados para São Bento, onde o presidente da Câmara anterior com seu bando ainda estavam fazendo arruaças e atemorizando a população. Esses soldados são do 23º Batalhão, o mesmo que antigamente foram comandado pelo coronel Piragibe e que no Rio participou em todas as lutas. Os soldados têm um bom comportamento, muito diferente daqueles de muitos dos destacamentos do exército brasileiro que aqui passaram.

Esperemos que em breve o país esteja todo novamente livre e limpo desses bandidos. Levará, porém, dezenas de anos para sarar as feridas praticadas pelos mesmos. Tomara que a paz seja estabelecida e que a República se possa consolidar bem firmemente, e assim conseqüentemente evitar tais horrores como vivemos durante esta revolução.

Que sejam estes os desígnios e a vontade do bom Deus. Felix Heinzelmann

Felix Hermann Friederich Karl Heinzelmann , nascido em 14 de janeiro de 1860 em Gut Dranske, ilha de Rügen, Alemanha, e falecido em Joinville em 4 de agosto de 1898, comandante dos Bombeiros Voluntários de Joinville durante todo o período da revolução federalista, recebeu, mais tarde, do governo da República, a Patente de Capitão Ajudante do 1º Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional, assinado pelo Presidente da República, Prudente de Morais. Este documento passou para as mãos do seu filho primogênito , Hermann Lourenço Heinzelmann, e posteriormente ao neto, Lourenço Gerhard Heinzelmann , ambos falecidos , estando agora nas mãos de Ivo Emílio Heinzelmann , bisneto do agraciado e filho do acima mencionado Lourenço Gerhard Heinzelmann

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