A escalada da Serra do Boi (distrito Itapocú) – 1907

“Die Besteigung der Serra do Boi im Bezirk Itapocu der Hansa”

Por Emil Hellmann*

Já há mais de um ano, havia, por parte dos colonos estabelecidos neste período, aos pés da majestosa Serra do Boi, um desejo ardente de escalar estas montanhas gigantescas, com dois topos bem delimitados, que elevam-se de 800 a 1.000 metros de altura acima do nível do mar, para apreciar a maravilha que se ofereceria aos olhos humanos lá do alto.

Era do nosso conhecimento de que apenas uma vez, há dois anos, um grupo de colonos guiados pelo Sr. Weber jr., agrimensor da Sociedade Colonizadora Hanseática, reconhecido por sua resistência física e sua excepcional capacidade de orientação, empreendeu a aventura de escalar o pico um pouco mais baixo, voltado para a vila, interessante por sua formação regular e a marcada forma pontuda do topo, o que antes parecia ser quase impossível. Através destas poucas pessoas que participaram desta escalada, nos veio a informação do fantástico panorama que se apresenta daquela vertiginosa altura.

Depois de haver o Sr. Weber gentilmente e prontamente nos atendido, confirmando que concordaria em, também desta vez, assumir a responsabilidade e as dificuldades do cargo de Guia através da floresta em direção àquela altura adversa, 12 pessoas se reuniram às 6:30 horas do dia 16 deste mês, com bom tempo, na estrada Ano Bom, para dali iniciar a difícil e árdua jornada da subida. O fato que, desde o início, conferiu um estímulo especial e uma honra à grande aventura, foi a inclusão da agradável presença feminina, representada por uma senhora e uma jovem senhorita. Sem esta participação prazerosa, seria apenas meio-prazer.

Contentes, rindo e conversando, nós, colonos confiantes da floresta brasileira, penetramos a mata escura e úmida às 6 horas e 45 minutos com o Guia à frente, e mais 3 pessoas lidando com o perigo e as armadilhas, fazendo picadas pelos lados utilizando facões bem afiados, e seguindo todos ao estilo nativo, um atrás do outro, as mulheres no meio; os que não faziam picadas, carregavam as armas, a água necessária, os alimentos, e um deles carregava inclusive um aparelho fotográfico nas costas.

Após poucos minutos, o terreno começou a inclinar de forma preocupante e em breve nos agarrávamos a paredões rochosos ásperos, sobre pedras soltas quase verticalmente à altitude e cada qual, individualmente, precisou juntar toda força, disposição e dor, para seguir adiante. A estratégia de nosso guia foi sensata, de nos impor o desafio da parte inicial especialmente difícil do primeiro trecho da subida, enquanto pudéssemos concentrar toda nossa resistência física e moral. Isto nos fez atravessar esta fase com sucesso, apesar do forte calor que sentíamos.

A partir deste ponto, o caminho seguiu um tempo considerável ao longo da primeira base da encosta, a maioria sem aclive acentuado, através da maravilhosa sombra e o abençoado parque natural. Assim, nossos pulmões tiveram tempo para recuperar sua atividade regular.

Quando chegamos ao ponto de subida da segunda encosta, nosso guia sugeriu, em consideração às mulheres, que fosse feita uma breve “siesta”, o que foi muito bem-vindo a todos, e ordenou, no entanto, que desta maneira, não esticássemos as extremidades do corpo, e que nos refrescássemos com um pouco de limonada e um pouco de comida que havíamos trazido.

Alguns fumantes apaixonados, entre estes o que escreve estas linhas, envolveram-se com o apreciado tabaco, e, novamente fortalecidos, continuamos avante exultantes, brincando, e fumando. A confiança geral na vitória logo começou a balançar significativamente, pois em breve, após poucos minutos, tornou a ficar difícil e os olhos já vislumbravam uma escalada que parecia praticamente impossível a ser vencida.

Os gritos de alegria de poucos minutos atrás ficavam cada vez mais raros, as faces suadas transformavam-se, em alguns, em verdadeiras dobras, e até o cachimbo de todas as horas desceu e desapareceu em algum bolso.

Lentamente, e por diversas vezes “de quatro”, em intervalos sempre maiores, escalamos aos poucos a altura infindável; o sistema respiratório trabalhava como máquina a vapor, mas sempre e novamente vencia o humor e a força-de-vontade.
Por aproximadamente uma hora seguimos desta maneira, montanha acima, e então já sentíamos disfunção nas vértebras e juntas, quando finalmente alcançamos o segundo topo. Neste ponto, pelas dificuldades que tivemos, fomos muito recompensados através da maravilhosa vista do Vale do Itapocú, por um lado, e por outro, da Vila de Humbold (Corupá), e áreas próximas.

Nesta altura já era possível perceber a marcada diferença nas características da floresta. Os imensos troncos de árvores já haviam se tornado raros, como também as palmeiras esguias; já se apresentavam outras espécies de bambús, mais fracas em estatura, e plantas sem espinhos. A ocorrência de espécies, tanto em porte como em número, havia diminuído, e as espécies de aves, tão comuns na parte de baixo não povoavam a altitude, com exceção de um tipo de pombo, cujo canto de acasalamento ouvíamos ocasionalmente; no entanto, cruzamos várias vezes com porcos do mato desgarrados do bando.

Após curto descanso, o Guia relembrou mais uma vez que era hora de partir, pois o sol já estava bem alto, e o calor crescente que sentimos na última escalada fez com que, no próprio topo, o Guia tivesse que nos pressionar energicamente para partirmos.
Não queremos negar que neste ponto alguns teriam protestado amigavelmente quanto ao veto contra mais uma parada de descanso da quase desumana escalada, mas considerando o bom propósito e o exemplo heroico de nossas acompanhantes mulheres, que venceram mais uma vez, especialmente quando se estava hesitante e relutante, e assim seguimos nosso Guia, pela terceira e última vez.

Após trecho curto, quando chegamos próximos do topo, para nosso horror, o caminho repentinamente se dirigia para uma curva, que estimei em 75 graus, para cima, na vertiginosa altura e então fomos postos à prova. Uma passada, ou seja, subida, no senso comum, tinha terminado aqui, pois nossos movimentos resumiam-se a um lento arrastar, puxados pelo precedente e empurrados pelo posterior.

O suor escorria como correnteza, as pernas tremiam, a respiração tossia, e apenas a palavra mágica “você precisa aguentar” fazia efeito. Agora tivemos a justa oportunidade de admirar a força e a resistência de ferro do nosso Guia e – ainda comentaremos adiante – de um vegetariano** presente, sendo que ambos nem transpiravam fortemente e nem sofriam de exaustão.

O Sr. Weber estava em todos os lugares, na ponta, no meio, e ainda procurava nos estimular constantemente, fazendo observações aqui e ali, sobre aspectos interessantes de pontos geográficos e da paisagem, mas eventualmente isto não causava mais o efeito desejado e apenas uns poucos mostravam-se sensíveis a suas interessantes explicações. A maioria foi acometida de total apatia e apenas um pensamento ativava a mente: “Se pelo menos estivesse finalmente no topo!”

Como o Sr. Weber já havia advertido anteriormente, agora o sol se fez sentir desagradavelmente, pois já há algum tempo nenhuma árvore nos oferecia sombra refrescante, já que a única área de floresta já estava muito distante e apenas encontrávamos arbustos e plantas rasteiras. Uma ocorrência excepcional nos aconteceu por acaso, aqui em cima, quanto à formação de solo. Ao invés de encontrarmos apenas rocha e pedras soltas, como imaginávamos, nossos pés afundaram profundamente em um líquem e terra pantanosa, enquanto bem adiante dominava a terra pedregosa.

Outra peculiaridade era a inacreditável margem aguda da escarpa da montanha, em alguns locais, que aqui ou ali consistia de área da largura de uma mão. Ali, ambos os lados do declive eram praticamente verticais, o que justificava os repetidos, insistentes avisos de precaução de nosso Guia. Uma queda na profundidade imensurável sem dúvida resultaria em morte.

Enquanto mobilizávamos nossas últimas forças por aproximadamente mais uma hora de escalada, ouvimos, nós os de trás, finalmente uma gritaria de alegria, um sinal de que os mais à frente já haviam alcançado o topo da montanha. Um pouco mais de esforço e também nós estávamos felizmente ali. Mortos de casados, a maioria se jogou na vegetação rasteira, que cobria a plataforma, procurando abrigo contra os tórridos raios de sol.

Os mais fortes juntaram material para fogueira e logo um fogo ativo, com sua linha de fumaça avisou nossos companheiros lá embaixo, na Hansa, de nossa chegada. Sabíamos que centenas de olhos já estavam por algum tempo dirigidos para o topo da montanha. Não sendo isto suficiente, também foram ainda disparados alguns tiros de pistola e espingarda, que foram em seguida recebidos com reciprocidade por todos os lados, e grande Jodler (som típico de população de montanha) espalhou-se pelo vale.

Uma haste de árvore de capoeira teve de servir de porta-bandeira, alguns pedaços de tecido de roupa-de-cama (Inlett), doados por nossos tecelões de montanha, formaram a bandeira e logo ela balançava, nem nas cores da pátria brasileira nem da pátria alemã, mas nas cores da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade; o pano, para nossa alegria, era visível em todas as direções, firme ao vento.

Todo o trajeto da escalada durou três horas e 30 minutos no total. Quando a pior fome e sede foram amenizados, e inutilmente tentamos terminar a substância revigorante do nosso nobre cervejeiro da vila, enquanto nossos companheiros descansavam um pouco; aproximamo-nos todos na borda da plataforma e nos esbaldamos no prazer que a visão do panorama nos oferecia, a natureza esplêndida e cada um capturou esta imagem magnífica pra si, um quadro sublime para toda a vida.

Quem viu Hansa e sua região como nós doze, sabe quão infinitamente bela ela é, e que deve ter sido criada pela natureza para oferecer Liberdade às pessoas que a procuram.
A grande distância vimos um faixa longa e clara, que contrastava com o colorido cadeia montanhosa coberta de florestas; era o mar, e alguns comentaram a lembrança “daquela época”, quando após longa, longa jornada sobre o “grande mar” avistaram pela primeira vez a costa do lindo Brasil, que se tornaria sua nova Pátria.

Depois de termos de termos absorvido a maravilha da natureza que nos envolvia, um participante deu asas à antiga tradição alemã, quando irrompeu um Viva (Hoch!) em homenagem àquele que nos guiou com tanto cuidado e confiança, ao qual tínhamos que agradecer, em primeiro lugar, pela inesquecível escalada – ao competente montanhista Sr. Weber junior. Este por outro lado, deu um Viva ao “pai do pensamento” (do provérbio: “Wunsch als Vater des Gedankens”). Mais um “Viva” à Sociedade Hanseática de Colonização, que abriu nosso caminho ao Brasil, país das maravilhas, e aqui tornou possível nossa existência.
O último “Viva” festejamos às duas heroínas, representantes do sexo feminino, as quais, com resistência e energia impressionantes, suportaram as dificuldades da marcha, a qual nós, os homens, quase sucumbimos; um brilhante exemplo para todas as mulheres e meninas da nossa Hansa!

E ainda, para guardar uma lembrança permanente deste dia especial, o fotógrafo presente organizou o agrupamento apropriado, na tentativa de manter unidos todos os participantes; naturalmente, com o poder do destino não há condição para tecer a união!

Acima de nós imperava céu azul com raios de sol, em volta de nós nuvens amareladas em variação de formatos, o que indicava momento desfavorável para o fotógrafo. Com ameaçadora coragem permanecemos sentados e eretos no local desejado, à beira do precipício, iluminados pela bola de gude exatamente sobre nós, aguardando que uma nuvenzinha se movesse para frente do sol, para propiciar a sombra necessária para a foto.

Mas infelizmente a condição permaneceu inalterada, enquanto os apelos da sede novamente se faziam sentir. Sem outra alternativa, o “artista das imagens” teve que decidir por fazer a captura; e, como depois se descobriu, com sucesso absolutamente negativo; apenas os contornos era visíveis, os rostos sem qualquer sinal! Que pena, que pena!

Depois ainda tivemos a oportunidade de perceber que até nesta altura do topo da montanha não faltava sinal de vida, pois um grupo de beija-flores se agitava sobre nossas cabeças, principalmente o tipo denominado “rabo de andorinha”, e até lagartas (parecidas com as de cor laranja de uma espécie comum), além da barata doméstica muito comum, que se afastaram com o grito de susto das mulheres. Assim, cada um juntou suas coisas e, após mais uma olhada para baixo nas profundezas, iniciamos a jornada de retorno, quase tão difícil quanto à subida.

No meio do caminho, fomos acometidos de uma sede ardente e como não havia fonte, nem córrego, encontramos socorro na água contida nas estruturas articuladas das canas da Taquara-Açú. Com o facão foi feita uma incisão sobre o nó e a água fresca da caninha exposta foi sugada com avidez. Que delicioso era o gosto de cada gole desta haste natural especial, tão comumente execrada, e sobre as quais o colono pisa sem pensar, e que então nos oferecia o que mais necessitávamos. Quem ainda dispunha de limões podia, de tempos em tempos, consumir uma fatia desta fruta tão útil à população dos trópicos e sub-trópicos, que acalma a sede de forma fantástica.

Após aproximadamente duas horas e meia de marcha, chegamos, felizmente, novamente ao ponto da partida de nossa excursão e com fortes apertos de mão separaram-se os componentes de um “grupo raro”, que mesmo sonolento e cansado, ainda assim orgulhosos e libertos, os peregrinos se juntariam novamente ao grupo comum. Antes, ainda, fizemos um merecido descanso, então um banho revigorante e finalmente, uma boa xícara de café como lembrança. Todos, porém, a quem relatamos a nossa experiência, desejam também em breve subir, para fazer a bandeira acenar e tremular novamente.

Glück auf!
Saudações!
Hellmann.

*Emil Hellmann – professor de ensino primário na escola Bonpland, e outras, em Corupá-Hansa, imigrante em Hansa-Humboldt no início do século. Subiu o Morro do Boi com 47 anos de idade. No ano de 1942, foi referido, em jornal local, como professor aposentado, com 82 anos de idade, ainda residente em Corupá.

**o vegetariano citado no texto pode ter sido Rudolf Vollrath (a confirmar), naturista, agricultor em Hansa, conhecido através de reportagens sobre seu estilo de vida, na Alemanha, e por sua emigração ao Brasil em 1904, tendo falecido em dezembro de 1913.

Obs. – O Guia, Johann Weber Junior, estabeleceu-se em Hansa-Corupá, em 1899, com seus pais e irmãos, naturais da Silésia. Agrimensor contratado pela sociedade Colonizadora Hanseática.

Artigo publicado em alemão no jornal “Der Hansabote”, edição de 26/01/1907, em Blumenau; redator: Aldinger. Acervo da Hemeroteca Digital Brasileira.

Foto anexada: autoria de Susan Eipper.

Tradução para o português: Brigitte Brandenburg, janeiro/2020

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