No Topo do Morro Jaraguá, no ano de 1911

Por Johann Welsch*

São João, digno patrono dos maçons, pediu a São Pedro, o moderno “Jupiter pluvius”, que proporcionasse bom tempo para a festa batizada em seu nome. Assim, me foi possível colocar em prática o que vinha há tempo planejando, de uma excursão à montanha, aliado a uma fogueira em bela altura, em homenagem ao solstício (Sonnenwendfeier). Diversos convites a lusos e teutos, para tomarem parte na escalada, foram inúteis. Alguns não tinham tempo, outros não tinham disposição e talvez também não tivessem coragem.

Uma noite de inverno ao ar livre no topo do morro não era atrativo para meus conhecidos. Então, fui sozinho, avante e acima!

No dia 23 de junho, às 12 horas, partida da vila de Jaraguá. A mochila já estava carregada com o pão de milho comum, com manteiga cremosa em uma lata e uma garrafa de água ainda vazia. Esta seria preenchida na última fonte de água que jorra da montanha! Após meia hora de marcha e travessia sobre o rio Itapocú em canoa.

Quando o canoeiro comentou com sua esposa, que eu pretendia passar a noite no topo do Morro Jaraguá a surpresa foi grande. Esta questionou se eu não temia bugres ou espíritos. Rindo orgulhosamente, expressei minha falta de preocupação. Vós filhos puros da natureza não sabem que “caras pálidas” são muito piores do que os “peles vermelhas” e que as criaturas de duas pernas, denominadas pessoas, são muito mais perigosas do que almas imaginárias de um suposto outro mundo?

Uma trilha bem estreita conduz, por uma hora através da sombra da mata, ao longo da encosta. Em alguns locais a picada é apenas reconhecida por um mateiro experiente. Também significa “fazer notícia” (deixar marcas). Mas hoje não será escrito com pena de aço, mas com lâmina de aço bem afiada; serão marcadas em baixo relevo com longos pontos de exclamação as circunferências das árvores na borda do caminho. Marcas de identificação para o retorno, em caso de perda de direção. A grande mata de bambu, taquara, oferece uma perfeita inscrição. Mas há dificuldades que podem causar ferimentos. O facão abre caminho. Mas cuidado perante espinhos afiados! – Sim o caminho da virtude é estreito e semeado com espinhos. Bem, estou no verdadeiro caminho para o céu!

No último córrego foi feita uma parada. Um idílio paradisíaco da floresta. A correnteza cristalina chapinhava sobre um bloco de granito coberto de limo.

O Brasil não tem ninfas? Se as tivesse, elas morariam aqui.

Com a garrafa cheia na mochila segue-se adiante ao longo do morro. Íngreme, e então ainda um pouco mais íngreme, sobre ravinas, sobre leito seco de água da chuva, sobre uma depressão entre dois cumes, e ao longo de uma crista estreita, cujo topo apresenta uma curvatura de parede de pedra enorme de aparência ameaçadora. Apenas aguarde, eu te dominarei!

Então agarrar-se em pedras ásperas, e em raízes entrelaçadas em fissuras de rochedos exige firmeza. A floresta alta ficou para trás. Vegetação rala, esparsa e sua taquarinha acompanham o peregrino até o topo árido.

Uma olhada no relógio. Três horas da tarde. E então, uma longa observação nos vales e além, ao mar.

Um grande mapa topográfico se apresenta aqui. Dos morros dos quais apenas se avista o perfil, agora pode-se visualizar uma face. Os velhos conhecidos dominam decididamente a partir deste novo ponto de vista. Sim, sim, não é bom, quando se observa algo sempre da mesma perspectiva. Assim obtém-se uma falsa imagem do que é relevante.

Isto vale tanto para morros como para pessoas.

Lá embaixo no vale há quadrados cinzas e amarelos. Cultivos de cana-de-açúcar e campos recentemente colhidos. Entre estes situam-se as instalações dos colonos, charmosamente aninhados. A vista mais clara é do vale do Itapocú, largamente exposta. A larga faixa prateada serpenteia através da bem demarcada margem, perde-se depois no verde da floresta, reaparece aqui e ali como lagos espalhados, desaparece novamente na floresta fechada do mangue, para mais uma vez reaparecer claramente na foz.

A baía com a ilha de São Francisco e as pequenas ilhas, os morros do Saí, são facilmente identificáveis. Lá, um pouco continente adentro, uma mancha branca com fundo verde escuro: Joinville!

Brüdertal e a estrada Schröder dispostas entre morros. Itapocuzinho com sua estrada e rio amplamente situados. Lá, ao Norte um zig-zag confuso de cumes de morros e pontas de rochedos. A Oeste o muro de granito da Serra do Mar, cortado em cima como uma superfície de mesa. Ao Sul, picos redondos, região acidentada e amplas planícies cobertas de florestas. Ao pé do Morro: Jacuassú com cultivos, pastagens e moradias.

É simplesmente e definitivamente indiscreto assim, de cima, espiar o lar de pessoas estranhas. Afaste o olhar e pense em seu “eu interior”: pão com manteiga e água da fonte. Uma refeição celestial em alturas olímpicas!

Agora é hora para se preocupar com material para fogueira. Galhos secos e hastes mortas estão disponíveis. Robert Mielke** esteve aqui na páscoa com sua foice e fez uma ótima limpeza! O seu trabalho me favoreceu, caso contrário uma fogueira de São João seria quase impossível. Logo ficou pronta uma pilha de hastes, com altura de um homem, o suficiente para a noite.

O apito da locomotiva ecoa acima. As sombras da noite deitam sobre os vales. Gradualmente os cumes mergulham no crepúsculo. Apenas o chapéu do morro, sobre o qual me encontro, será abençoado pelo último raio de sol, até que o lampejo do dia se apague. Agora prepare-se para a noite próxima! O cobertor de raízes necessita de um lugarzinho protegido do vento, em uma escavação profunda. Para ali deslizarei depois que meus braços cansarem de acender a fogueira. Jaraguá já acena para cá com três, cinco e agora sete e mais luzinhas. Estrelas no céu e estrelas sobre a terra. Agora deixe também sua luz brilhar!

“Tipo Top” (nome de marca de fósforo)carrega sua culpa. Os galhos estão em chamas. Espero que os de baixo brilhem como uma estrela de sexta grandeza.

Pois as estrelas de primeira grandeza, aquelas que brilham acima, são piras do “Sunwendfeuer” (Sonnenwendfeuer-solstício de verão no hemisfério norte, ou a vitória da luz sobre a escuridão, através do fogo de João, ou outras interpretações). Explosões de foguetes e tiros de pistola são intensamente percebidos. Ali, a Leste, onde presumo que seja a Ilha de São Francisco, alterna-se luz e escuridão em curtos intervalos: a luz intermitente do farol. Onde meus olhos procuram por Joinville, brilha a luz mais clara de fogueiras para além e acima. A luz mais forte no horizonte noturno.

Persistem ainda os salves de alegria. À meia-noite torna o silêncio.

As extremidades grossas das hastes no fogo, depois no acampamento sobre o húmus macio. Os sons da floresta atravessam a atmosfera como canção de ninar.

4 horas da manhã: Um vento Nordeste atinge as cinzas. O primeiro “Passat” (sistema de vento?), o qual trouxe Cabral à costa do Brasil. Oh, sempre, sempre precisa ser descoberta, esta grande, bela Terra, ainda não suficientemente conhecida.

Através de delicadas nuvens atravessa a estreita lua crescente. Uma área prateada brilhante a Leste: O mar!

A Aurora se eleva.

Das nuvens púrpuras disparam longos raios. A roda do sol ilumina o orvalho da manhã. Um mar de sangue afunda ao longo. O púrpura tinge-se de azul celeste. Branco tornam-se as praias. O sol se levanta.

Minha fogueira ainda produz fumaça do calor fraco da madeira verde. Uma oferenda ao deus do sol. Ontem minha visão variava para fora, na imensidão; hoje está como se fosse apagada pelos morros vizinhos.

Ali a floresta escala a encosta acima como uma massa fechada e, de fato, cada árvore isolada é identificável por sua coroa redonda e em sua nuance particular, pela cor das folhas. Uma imagem da humanidade que, como um todo, aspira ao alto, apesar de individualidades em particular possam estar presas ao chão, e assim poder conquistar um pedacinho da luz do céu e lentamente crescer mais para o alto.

Ainda uma observação da grande base do morro, no vale abaixo. Uma veia verde-escura percorre os rios a Oeste. Itapocú. Uma madeirinha está deitada sobre ele. O senhor a colocou ali, Sr. construtor de pontes? Alguns filamentos tortos dirigem-se à direita e à esquerda. Também um fio relativamente reto dispõem-se ao lado. Um verme cinza desliza sobre ela – o trem sobre os trilhos.

8 horas da manhã: o verme para em um grão de areia pontudo – a Estação ferroviária. Ainda outros grãos de areia dispostos em fila e agrupados – as casas do centro da vila. Agora o verme se arrasta sobre uma teia de aranha sobre o rio – a ponte da estrada de ferro. Um apito agudo causa um eco embaixo na ravina. Em meio a um verde empoeirado desaparecem finalmente o “verme e os filamentos” da minha visão.

9 horas da manhã: pronto para a partida. Mais uma vez uma vista geral do lindo panorama. Suguem, meus olhos, a beleza da nova pátria! Agradeço-te, meu morro, pela feliz pousada. E agora, a procura das pistas de ontem, para baixo, para uma breve parada no córrego das ninfas.

Uma haste nova (para apoio) e adiante segue-se em direção ao vale. Minhas inscrições no tronco de algumas árvores indicam o caminho. Embaixo, o canoeiro e sua esposa alegram-se por eu não haver congelado. Mas eu sinto por minha conhecida audácia, pois minha toilette está meio decaída. Ou apenas me parece? Quando se retorna ao convívio das pessoas após a escalada desta altura é natural que nos sintamos assim, acabados.

Poeira e suor são lavados. Outras roupas e então relatos a um amigo conhecido de todas as alturas.

Que altura tem o morro? Não sei. Infelizmente não possuía um altímetro. A qual formação geológica pertence o morro? É desconhecido para mim. Se o morro contém minerais ou carvão? Também neste caso preciso admitir minha ignorância. Porque eu escalei o morro? Para admirar a natureza em sua absoluta majestade, para fortalecer meus olhos físicos e espirituais através da visão da imensidão, da amplitude da vastidão. Porque minha fogueira não era maior? A mim era grande o suficiente. Acredite em mim, em alguns idealistas queima uma alta chama no coração quando seus queridos pares a tomam por uma fraca luz noturna.

De onde ela se origina? Ai, isto provavelmente é sempre assim, quando alguém está lá em cima e os outros bem lá embaixo.

Se eu escreverei um ensaio sobre minha viagem no dia de São João? Então, aqui está!

Johann Welsch.

*J.W. -professor das escolas da estrada Blumenau km 3 e da escola de Anaburg, Jlle, entre os ano de 1912 e a década de 20; imigrante nascido em Munique, Baviera, escalou o morro ou Pico Jaraguá com 39 anos de idade, em junho de 1911. Casou-se em Joinville com a viúva Dorothea Fettback, nascida Kricheldorf, no ano de 1912. Publicou seu relato em alemão, no Jornal “Die Fackel”,Jlle, edição de nr. 57, de 3 julho de 1911, com o título “AUF DEN GIPFEL DES JARAGUABERGES”.

**Robert Mielke, oriundo de Anaburg, Jlle, residente em Itapocú desde 1887, em área de domínio da Sociedade Colonizadora de Hamburgo 1849.

Tradução para o português: Brigitte Brandenburg

Jornal “Die Fackel”, on-line, acervo da Biblioteca Nacional, Hemeroteca digital brasileira.

Foto anexa- Biblioteca do IBGE, on-line, autor Arthur Wischral.

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