REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DO HISTORIADOR E CENSURA

Com a regulamentação da profissão do historiador perto de ser uma realidade, uma questão surge:

Uma vez sancionada e reconhecido a profissão do historiador, haveria margem para censurar aqueles que escrevem história sem terem formação na área?

A resposta é não. A história não tem dono e não é monopólio dos historiadores. Eles são apenas mais um participante desse jogo, que é muitas vezes disputado de forma tensa e desleal, inclusive pelos historiadores conforme apontam Caroline Bauer e Fernando.

Gosto de ilustrar com dois exemplos do mesmo lado da moeda.

No primeiro caso temos o trabalho do jornalista Laurentino Gomes (Imagem 1) sem formação em história. Entretanto isso não o impediu de fazer um trabalho sério e honesto e até mesmo admitir que se equivocou em alguns momentos e depois os corrigiu. Seus livros são sucesso de vendas e são referências.

No segundo caso temos a professora de Artes Simoni Renée Guerreiro Dias autoria do livro Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte, (Imagem 2) que afirma que o líder alemão teria fugido para a cidade de Nossa senhora do livramento no Estado do Mato grosso, onde viveu e morreu. O trabalho de Simoni é fantasioso, não tem rigor científico nenhum e não segue os critérios de apuração historiográfica. Embora tenha tido seus 15 minutos no programa do The Noite do apresentador Danilo Gentili ao ser entrevistada em 2014, diferentemente de Laurentino Gomes o livro caiu no ostracismo e pouca gente se lembra de seu trabalho. Até mesmo em sebos quase não se encontra o livro mesmo não sendo tão antigo.

Dois lados da mesma moeda, dois trabalhos de indivíduos sem formação em história. Um honesto e reconhecido e o outro fantasioso e esquecido. Mas nenhum dos dois foi censurado ou proibido de ser publicado.

Quem quiser escrever sobre história, vai continuar tendo a liberdade de produzir livremente independente de ter ou não a profissão regulamentada. Vida que segue. Reconhecer a profissão de historiador não suprime a liberdade de expressão de ninguém.

Se a produção é boa ou ruim será Clio, senhora de tudo e de todos que irá julgar o caso.

Imagem 1
Livro “1808” do escrito Laurentino Gomes.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem
Livro “Hitler no Brasil – Sua vida e sua morte” de Simoni Renée Guerreiro Dias

3 Comments

  1. Bons dias. Um reparo: dizer que o trabalho de Laurentino Gomes, em 1808, é “sério e honesto”, é bastante contestável e contestado. Isabel A. Ferreira, Antonio Netto Guerreiro, José Verdasca, Mendo Castro Henriques, Luísa Paiva Boleo, eu próprio, somos seis pesquisadores e autores que lhe refutamos a seriedade e a honestidade. O livro 1808 é porcaria de que se vendeu muito graças à propaganda de quem era ligado à Veja (Laurentino). Ele contribuiu para perverter a percepção que os brasileiros têm de si e de seu passado, com sua parcialidade, seu vezo depreciativo. Não está em causa ser apenas jornalista e não ser formado em história: Rocha Pombo, David Carneiro, o visconde de Porto SEguro, Otávio Tarqüínio de Sousa também não eram formados nisto e foram respeitáveis historiadores. Aliás, 1808 já é encalhe nos sebos; foi voga; passou; é lixo. Em mensagem anterior remeti-lhe minha crítica a 1808.

    Saúde e fraternidade. Arthur Virmond de Lacerda Neto. arthurlacerda@onda.com.br http://arthurlacerda.wordpress.com

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  2. Bons dias.
    Um reparo: dizer que o trabalho de Laurentino Gomes, em 1808, é “sério e honesto”, é bastante contestável e contestado. Isabel A. Ferreira, Antonio Netto
    Guerreiro, José Verdasca, Mendo Castro Henriques, Luísa Paiva Boleo, eu próprio, somos seis pesquisadores e autores que lhe refutamos a seriedade e a
    honestidade. O livro 1808 é porcaria de que se vendeu muito graças à propaganda de quem era ligado à Veja (Laurentino). Ele contribuiu para perverter a
    percepção que os brasileiros têm de si e de seu passado, com sua parcialidade, seu vezo depreciativo. Não está em causa ser apenas jornalista e não ser
    formado em história: Rocha Pombo, David Carneiro, o visconde de Porto SEguro, Otávio Tarqüínio de Sousa também não eram formados nisto e foram respeitáveis
    historiadores. Aliás, 1808 já é encalhe nos sebos; foi voga; passou; é lixo.

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  3. Da autoria de Laurentino Gomes, “1808” (editora Planeta, 2008) é mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que
    foi concebido.
    A sua inclinação é negativista, detratora de Portugal e fomentadora da muito famigerada lusofobia, desprezo e ódio de muitos brasileiros pelo nosso passado colonial e pela nossa origem portuguesa.
    Todo historiador é livre nos seus juízos, com que avalia personagens, considera-lhes a atuação, julga-lhes o papel, descreve conjunturas, enfatiza aspectos. Diante da massa de informações de que dispôs, na farta bibliografia relativa ao Brasil colonial, a D. João VI e o seu tempo, o autor selecionou aspectos que enfatizam negatividades, em uma maledicência que se observa, por exemplo, na descrição de Salvador colonial (cidade suja, decadente, tipicamente
    portuguesa na sua falta de planejamento, com casas repugnantemente sujas, em que o vice-rei dançava na igreja de modo indigno, em que os senhores faziam de cafetões das suas escravas. Páginas 114 a 116); ao descrever o Rio de Janeiro de então (em cujas casas havia sujeira e preguiça; cuja limpeza cabia aos urubus e era infestada de ratos. Página 157); ao apodar a corte de ociosa, corrupta, perdulária, voraz e cara (páginas 150 e 189), que veio acompanhada por aventureiros sem princípios (página 188) e cujos integrantes ambicionavam enriquecer à custa do Estado mais do que servir ao bem comum (página 189); ao caracterizar D. João VI, como despreparado para reinar, tímido, supersticioso, feio, temeroso de caranguejos e trovoadas (página 32).
    Assinala-se, neste livro, um empenho pela difamação ou, quando menos, uma animadversão anti-lusitana que se intensificam nos capítulos 11, “Uma carta”, e 21, “Os viajantes”.
    O capítulo vigésimo primeiro contém uma série de excertos de relatos de viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil colonial ou já elevado a Reino Unido. Dentre as dezenas de narrativas, Laurentino Gomes ateve-se às de Maria Graham, de Koster, Mawe, Henderson, Burchell e Saint-Hilaire, de que excertou observações tais como: pena o Brasil não haver sido colonizado por uma nação ativa e inteligente (página 263), os nordestinos são desonestos (página 267), a
    colônia é preguiçosa e descuidada, sem vocação para o trabalho, de povo analfabeto, inculto e desinstruído (página 268); em São Paulo abundava a sujeira e a prostituição (página 270).
    A história deve-se escrever com verdades, custe o que custar observá-las e admiti-las (no caso de informes porventura desconfortáveis à sensibilidade do leitor, ao patriotismo ou a outros valores quaisquer), ao mesmo tempo em que os depoimentos de época devem submeter-se à análise crítica, de que resulte a determinação do seu valor como expressão da realidade. Abonadores ou depreciativos, valem como informações localizadas, porventura parciais, a que se pode e deve associar outras, de outras fontes, e sobretudo as que resultem de investigações profundas: foi o de que se absteve Laurentino Gomes, que admitiu a palavra dos viajantes sem mais critério do que o seu conteúdo desabonador.
    Do acervo pletórico de informes transmitidos pelos viajantes, ele preferiu, sistematicamente, as notas pejorativas, as passagens caracterizadoras de uma realidade sempre lamentável, de um estado de coisas vergonhoso.
    Constitui o undécimo capítulo verdadeira excrescência: nele se reproduz, por inteiro, a carta de Luiz Marrocos ao seu pai, de 12 de abril de 1811, em que reporta ele, acerca da fragata que levou, de Lisboa ao Rio de Janeiro, uma parte da biblioteca real: a água potável achava-se corrupta e infestada de
    bichos, a carne salgada e a cordoalha apodreceram, as velas avariaram-se, a medicação é insuficiente, a tripulação não presta.
    Das 186 cartas conhecidas de Luiz Marrocos (página 80), o autor reproduziu precisamente a que apresenta quadro deplorável de uma fragata portuguesa,
    especialmente importante por haver trazido parte da livraria da coroa.
    É estranhável instituir-se um capítulo cujo único teor corresponde à reprodução de uma carta em livro que não se ocupa da biografia do missivista, que
    não lhe estuda o epistolário, que não transcreve nenhuma outra carta. Tal capítulo representa uma anomalia, em face do conjunto do livro. Ele existe, contudo,
    porque atende ao mesmo fito que animou Laurentino Gomes na seleção das passagens a que me referi: ele serve para difamar Portugal e quanto se lhe refira.
    Ao manusearem-se livros ilustrados, o leitor dirige-se, quase instintivamente, às gravuras, movido pela curiosidade: as respectivas legendas é o que,
    tendencialmente, também se lê, em uma vistoria superficial de livro que não se leu.
    O que o leitor encontra nas legendas de “1808” são informações, também elas, depreciativas: a prataria e 60.000 livros esquecidos no cais, na correria
    da partida da corte; a corte fugiu; D. João teria vencido os franceses, “se tivesse coragem” para tal; ele era “tímido, feio, inseguro”, “de aparência
    grotesca”; Carlota Joaquina era “feia, maquiavélica e infeliz”; a corte era “corrupta e perdulária”.
    Há, em “1808”, uma atitude psicológica: a de achincalhar e amesquinhar, o que o transformou, de livro de informação histórica, que deveria ser, em
    veículo de um dos piores males da psicologia do brasileiro, a lusofobia, desprezo por Portugal, pela colonização do Brasil, pelas nossas origens históricas.
    As passagens excertadas contêm a expressão da lusofobia, padrão de entendimento e de sentimento que se instalou no sistema psicológico de muitos
    brasileiros, que os leva a desmerecer a cultura portuguesa e a acusar a colonização que Portugal desenvolveu no Brasil. Como todo preconceito, ele equivale a
    uma falsificação da realidade, em desprezo, injusto, do objeto a que se refere.
    Este preconceito surgiu ao tempo da independência do Brasil, como reação da população colonial, no seu anseio pela emancipação política, e mantém-se
    como renegação da origem histórica do brasileiro.
    Com inverdade e injustiça, propalam-se, mesmo nas escolas, informações vexatórias, que mantêm a lusofobia, como as de que o Brasil teria sido
    colonizado por degredados e por prostitutas, que a então colônia era depósito de criminosos, que a colonização holandesa teria sido preferível à portuguesa.
    Nem fomos colonizados pela escória de Portugal, nem o Brasil foi valhacouto de delinqüentes, como, sobretudo, a presença holandesa no nordeste foi, a todos os
    títulos, detestável.
    Resultados da lusofobia são a debilitação do sentido de identidade cultural dos brasileiros; o desprezo de muitos deles pelo passado nacional; a
    vergonha das nossas origens; o complexo de inferioridade do brasileiro face ao estrangeiro e a admiração, muitas vezes ingênua, por este; o desprezo do idioma
    português; o vezo de ridicularizar o país e o povo de que provimos; a debilitação do patriotismo como amor ao país e esforço pelo melhoramento da vida
    coletiva.
    A lusofobia, infelizmente, existe e mantém-se: “1808” mantém-na e a veicula.
    Da leitura do quadro de misérias, cuidadosamente constituído por Laurentino Gomes, não haverá brasileiro que não se sinta entristecido, quiçá
    revoltado e, certamente, envergonhado das nossas origens e de parte do nosso passado.
    Felizmente há, no Brasil, livros recomendáveis de autores respeitáveis: Oliveira Lima, Pedro Calmon, o Visconde de Porto Seguro, Rocha Pombo, David Carneiro,
    Mário Neme, Afonso de Taunay, Capistrano de Abreu e tantos outros.
    “1808” é livro de leitura fácil, na sua redação intencionalmente singela, vocacionada ao acesso do grande público. É altamente louvável que se redijam
    livros deste tipo, como forma de se difundir conhecimento e de favorecer o gosto pela leitura, aspecto em que merece todo o louvor. Fácil ou difícil, nada
    compensa, todavia, o seu maniqueísmo maledicente, a sua parcialidade no critério de seleção das informações e a perniciosidade dos efeitos psicológicos que
    provocará em muitos leitores.
    É livro também ruim pelo seu apelo comercial, visível no seu sub-título, estampado na capa: “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta
    enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.
    Na adjetivação patenteia-se, indisfarçavelmente, a lusofobia do autor; o tom bombástico destina-se a suscitar a curiosidade por meio do seu apelo
    sensacionalista, semelhantemente a uma cartaz comercial ou a um anúncio de telenovela do tipo “Amor e morte; intriga e paixão na novela das 20 h.”. Um livro a
    sério não necessita de semelhantes mesquinharias; aliás, um livro a sério repele-as.
    Amador na área dos estudos históricos, o seu autor qualifica-o, estranhamente, de “investigação jornalística” e jacta-se de haver lido mais de 150 livros que
    lhe serviram de fontes: com bem menos, outros autores produziram obras que enriqueceram honrosamente o acervo bibliográfico brasileiro.
    Recebeu o prêmio Jabuti de 2008, para desprimor do prêmio e para ilusão do público que se deixe impressionar por ele . Contudo, assim como me repugnou
    o livro, repugnou a outros leitores, que o analisaram com senso crítico. Foi o caso, em Portugal, de Isabel A. Ferreira, Mendo Castro Henriques e João Gomes.
    Dada a publicação de “1808”, Isabel Ferreira reagiu, no mesmo ano (2008) com o seu livreto “Contestação”, voltada a refutá-lo e cuja publicação no Brasil
    corresponde a uma verdadeira premência de saúde pública cultural. Prefaciado por Mendo Castro Henriques e por João Gomes, asserem eles: “O livro de Laurentino
    Gomes é interessantíssimo do ponto de vista hermenêutico porque acumula quase todos os erros possíveis ao interpretar figuras históricas: falta de
    contextualização, acumulação de informação não tratada, confusão nos critérios de relevância, teoria explicativa deficiente etc., etc.”
    Quem desejar informar-se, a sério, sobre o reinado de D. João VI, a transferência da corte para o Brasil e sua estada cá, lerá, de Patrick Wilckens, “Império
    à deriva”, e “D. João VI”, de Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, ambos publicados no Brasil.

    Redigi prefácio à segunda edição de “Contestação”, de Isabel A. Ferreira, por publicar com o título D. João VI:
    Se há livros recomendáveis, que acrescentam informação, lucidez, reflexão e merecem leitura (e, freqüentemente, releitura) há, em contrapartida, maus
    livros, que disseminam inverdades, interpretações tendenciosas, fortalecem preconceitos e que merecem descrédito e esquecimento.
    No primeiro caso acham-se as obras de historiadores como Rocha Pombo, Oliveira Lima, Afonso Taunay, Carlos Mendonça Lisboa, Jaime Cortesão, Jorge
    Couto e não só. No segundo, o livro 1808, de Laurentino Gomes.
    Publicou-se 1808 no ano de 2008, por ocasião do bicentenário do deslocamento da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, acontecimento que se
    recordou, no Brasil, nos meios de comunicação de massa e que, em alguma proporção, despertou a atenção do grande público para tal livro, que, rapidamente,
    obteve assinalável êxito de vendagem.
    Não terá sido, no entanto, a coincidência (certamente intencional) da efeméride com o tema e o título do livro a razão decisiva da sua propagação
    no Brasil: para tal efeito terão concorrido a condição de Laurentino Gomes de antigo diretor da revista Veja e as facilidades, disto decorrentes, de
    divulgação, como, sobretudo, o seu enfoque tendencioso, o seu vezo lusófobo, a sua adjetivação fanfarrã, combinação de defeitos que o assemelham a certas
    telenovelas, que cativam a fidelidade do espectador graças ao insólito, ao emocional, ao artificial (caso contrário, desgraciosas, pouco atrairiam): lê-se
    1808 como quem assiste a alguma telenovela escassa em arte e sôfrega de audiência.
    Assim é 1808: esteticamente mediano, destituído de graças que o distingam, ao mesmo tempo em que, pelo seu teor, constitui obra de lusofobia.
    Chama-se de lusofobia a animadversão, quando menos, a má vontade, presente em abundantes brasileiros, coevos e pretéritos, relativa a Portugal, à
    colonização do Brasil e à herança cultural portuguesa.
    Originária das paixões políticas que, ao tempo da independência do Brasil, opuseram brasileiros a portugueses; reavivada ao tempo do governo do
    marechal Floriano Peixoto, como elemento emocional que se mesclou a outras paixões políticas; reiterada pelo ensino de história do Brasil, dela resultou, no
    senso comum brasileiro, a espontaneidade com que se inculpa a colonização pelos males do Brasil, com que se desmerece a sua origem portuguesa, com que se
    lamenta não haver o Brasil sido colonizado por ingleses ou holandeses (inculpação, demérito e lamento injustos e que o escrutínio do passado brasileiro,
    empreendido por autores como Gilberto Freyre, Carlos Mendonça, Rocha Pombo, Mário Neme, permite desmentir).
    Neste contexto mental de verdadeiro preconceito é que se instalou 1808 e graças também a ele é que grassou como epidemia.
    Não se trata de mais um livro de história, dentre outros. Ele não ilumina com interpretações pioneiras, não esclarece com informações inéditas,
    não enriquece com percepções lúcidas, sequer informa com dados imparciais. Ele não é melhor do que outros.
    Ao contrário, ele constitui o pior da historiografia brasileira contemporânea: esforça-se por reiterar, esmiuçar, documentar o que, no Brasil,
    corre como lugar-comum antipático a D. João VI, a Dona Carlota Joaquina, ao deslocamento da corte, aos modos dos cortesãos no Rio de Janeiro, às mazelas da
    corte, ao sistema colonial, à herança portuguesa no Brasil.
    É perceptível a predileção de 1808 por dados selecionados para combinarem-se com o senso-comum lusófobo: é livro que diz o que as pessoas acham-se
    acostumadas a ouvir, sentido no qual, longe de esclarecer o grande público, de elevar o nível cultural do povo brasileiro, ele prestou-lhe o desserviço de
    corroborar-lhe um preconceito.
    Livros combatem-se com livros; os maus livros combatem-se com refutações, da parte dos autores e com leituras outras, da parte dos ledores. Era
    urgente que alguém denunciasse a parcialidade de 1808: a tal correspondeu a iniciativa oportuna de Isabel de Araújo Ferreira, que lhe identificou os vícios
    mais flagrantes e contrapôs-lhes ponderações acertadas.
    A loucura de Dona Maria I, os méritos da sua governação; a argúcia de D. João VI ao haver-se com Napoleão; o feitio de D. João VI; a insistência
    em certa adjetivação; o mito de que a colonização do Brasil foi pior do que a de outros países colonizadores; o cotejo entre o Brasil e os Estados Unidos da
    América; a presença da escravidão; a sujidade do Rio de Janeiro; a governação de Portugal durante a estada de D. João VI no Rio de Janeiro; as circunstâncias
    em que se deram os fatos, constituem alguns dos pontos sobre os quais Isabel Ferreira exerce o contraponto.
    Anti-1808, Dom João VI transcende a condição de mera refutação: ele demonstra que os livros de ampla divulgação nem sempre o são por mérito
    intelectual e que há medalhões que não o merecem ser; que D. João VI e a obra de Portugal no Brasil andam a ser objeto de juízos injustos, que corrige;
    patenteia a necessidade de compreensão das circunstâncias históricas como condição de compreensão dos respectivos atores; ensina o quão empobrecedor é o
    maniqueísmo na narrativa histórica.
    Para se produzir obra minimamente credível, cumpre haver informações corretas e isenção: eis o que nos propicia Dom João VI, como ensinamento.
    Como conteúdo, transmite-nos ponderações e dados que é urgente popularizar no Brasil, em favor do esclarecimento do senso-comum, funestamente viciado por
    1808.
    Arthur Virmond de Lacerda Neto. 9 de agosto de 2014.

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