O papagaio brasileiro do Conde se Nassau

Muitas foram as espécies da fauna e flora do novo mundo que chamaram a atenção do príncipe alemão. Muito provavelmente, o que mais chamara a atenção de Nassau durante os sete anos de Brasil tenha sido um papagaio extremamente habilidoso. Segundo Mello:

“Curiosamente, nos meios cultos da Europa, o nome de Nassau ficaria associado ao papagaio. Naqueles anos 60, informa o embaixador inglês em Haia, William Temple, circulava ‘a história comum mas muito acreditada’ que ouvira frequentemente a ‘pessoa merecedoras de crédito’ relativa ‘a um velho papagaio que ele tinha no Brasil durante seu governo ali, o qual falava e respondia às perguntas banais como uma criatura dotada de razão’, levando as pessoas do séquito nassoviano a se persuadirem de tratar-se de feitiçaria ou de possessão. Fora o caso do predicante Plate, que ‘não pudera desde então tolerar um papagaio, dizendo que todos eles tinham o diabo dentro de si’. Como assinala Dante Martins Teixeira, devido a que, na visão cristão, o dom da palavra só pertence aos anjos, aos homens e aos demônios, o animal tinha de ser vítima da possessão diabólica, como assegurava Plate.

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O episódio teve provavelmente lugar em 1642, após a conquista do Maranhão. Em conversa com Nassau, o representante de Sua Majestade britânica quis saber a verdade.

‘Ele disse, com sua maneira clara e seca de falar, que havia algo de verdadeiro mas também muito de falso no que corria a este propósito. Indaguei-lhe sobre a primeira parte. Ele referiu-se, breve e friamente, que soubera deste papagaio quando estava no Brasil; que embora não acreditasse no caso e o animal estivesse em lugar distante, tivera todavia a curiosidade de manda-lo buscar; e que era um papagaio bem grande e muito velho.’

Quando o papagaio entrara ‘na sala onde o príncipe estava, com vários neerlandeses em torno de si, o animal exclamou: ‘Que quantidade de homens brancos por aqui!’. Apontando o príncipe, eles lhe perguntaram quem era aquele homem. O papagaio redarguiu: ‘Algum general ou algo assim’. Quando o trouxeram para perto do príncipe, este indagou: ‘De onde vens?’ A resposta foi: ‘Do Maranhão’. O príncipe ‘A quem pertences?’. O papagaio: ‘A um português’. O príncipe ‘Que fazes ali?’. O papagaio: ‘Vigio as galinhas’. O príncipe riu-se: ‘Guarda as galinhas?’ O papagaio: ‘Sim, guardo, e muito bem’; e quatro ou cinco vezes fez o xô xô que se usa para chamá-las.’
Como Nassau não soubesse inglês, conversou com Temple em francês. O embaixador continua seu relato:


‘Perguntei-lhe em que língua o papagaio falava; e ele disse em brasileiro [isto é, na língua geral]. Indaguei-lhe se compreendia o brasileiro. Disse-me que não, mas que tivera o cuidado de ter dois intérpretes a seu lado, um neerlandês que falava brasileiro, e outro um brasileiro que falava holandês; que os inquiria separadamente e em particular, e que ambos reportaram-lhe a mesma coisa.’
[…].

Nassau mandou, aliás, que o papagaio fosse pintado, e o retrato fará parte da oferta a Luís XIV. O animal também entrará para a história da filosofia graças a John Locke, que transcreveu o relato de Temple no Ensaio acerca do entendimento humano. Mas segundo um comentador, enquanto filósofo não dera muito crédito à história, ratando-a com um ‘ceticismo cauteloso’, ela causou ‘uma profunda impressão na memória de todos os que leram o Ensaio’, de vez que ‘mais de um dos seus admiradores confesso parecem lembrar-se pouco deste trabalho, exceto pela história do papagaio.’” (P.121-122-123)

Fonte

  • MELLO, Evaldo Cabral de. Perfis Brasileiros: Nassau. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • Autor Roberto Junio Martinasso Ribeiro – página facebook O Brasil Holandês 1630-1654

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